- O regulamento da União Europeia (EUDR) exige rastreabilidade verificada para importações de café, levando produtores hondurenhos a mudar práticas de manejo e documentação.
- A exportadora Becamo S.A. compra de quase dez mil pequenos produtores e vende cerca de noventa por cento de sua safra para a Europa, incluindo o uso de aplicativo de rastreabilidade desenvolvido com a Neumann Kaffee Gruppe (NKG).
- Agricultores passam a receber consultoria agronômica gratuita e apoio técnico para melhorar o manejo do solo, sombreamento, controle de pragas e compostagem de resíduos de café, aumentando o número de técnicos regionais da Becamo.
- Um desafio cultural é o trabalho infantil durante a colheita; a Becamo financia centros de cuidado infantil móvel em regiões produtoras para enfrentar o problema.
- Conectividade, propriedade de dados e custos de implementação são entraves; existem opções como apps pagos e a plataforma open-source Inatrace, financiada pelo BMZ, com resultados variados.
Concepción de Soluteca, Honduras — A implementação da EUDR, norma da UE para rastreabilidade de commodities, está levando agricultores de café a mudarem hábitos antigos. Originalmente, a plantação era para subsistência, com pouca infraestrutura e ensino básico. Hoje, a prática busca atender padrões internacionais.
A mudança surgiu quando Roberto González herdou a propriedade de 12 hectares e viu o café ganhar importância econômica. Com apoio de intermediários e bancos, o cultivo prosperou por um tempo, mas sem manejo adequado do solo e da sombra.
O que aconteceu, quem está envolvido e onde
Hoje, a união agrícola Unión y Fuerza, com 19 membros, vende boa parte da produção à Becamo S.A., exportadora hondurenha de café. Becamo atende quase 10 mil pequenos produtores, incluindo González, que participa do programa de consultoria técnica da empresa.
Além de cumprir regras de rastreabilidade, o grupo investe em assistência técnica para atender às exigências da UE. A maior clientela alemã da Becamo motivou uma solução de rastreabilidade iniciada pela maior parceira da empresa, a Neumann Kaffee Gruppe (NKG).
Quando e por que a EUDR ganhou impulso
Antes da regulamentação formal da Comissão Europeia anunciada em 2021, Becamo já trabalhava com rastreabilidade. O objetivo é evitar a associação de café a desmatamento recente e garantir práticas laborais adequadas, com registros documentados.
Para os pequenos produtores, a adoção tecnológica exigiu custos iniciais. Desde 2021, o número de agrônomos regionais da Becamo subiu de 16 para 40, e o time de sustentabilidade passou de 26 para 51 pessoas.
Desafios práticos da implementação
O trabalho de campo envolve verificar títulos de terra, assentar latrinas para trabalhadores e preencher questionários sobre certificações e uso de insumos. Agricultores relatam melhoria na gestão, porém há desafios culturais, como o trabalho infantil em meses de colheita.
Para enfrentar isso, Becamo financiou centros de cuidado infantil durante a safra, com apoio de grandes varejistas alemães. Em visitas às fazendas, agrônomos também identificam pragas, erosão e necessidade de mão de obra sazonal estável.
Mudanças na prática agrícola e impactos
Alguns produtores passaram a adotar manejo agroflorestal e plantas que protegem o solo. Um exemplo é Jaime Calix, que reduziu pesticidas em seis anos e investe em cobertura vegetal para reter água e melhorar o húmus.
A prática de compostagem substituiu o descarte inadequado de resíduos de cereja de café, reduzindo a acidificação do solo e a contaminação de cursos d’água. Técnicas aprendidas em parceria com IHCAFE são disseminadas entre as famílias.
Inclusão digital e custos de conformidade
A EUDR impulsiona a digitalização, com oportunidades para produtores menores. Contudo, a conectividade ruim e a alfabetização digital desafiam a adoção de apps agrícolas. A propriedade dos dados ainda é centralizada por exportadores.
Aplicativos pagos chegam a custar até 300 por mês, o que dificulta o acesso de cooperativas menores. Soluções abertas, como a Inatrace, são gratuitas, porém com desempenho variável em offline e precisão de geolocalização.
Perspectivas e posição institucional
Especialistas indicam que padrões adicionais devem surgir conforme avanços globais. A EUDR é vista como motor de inclusão e, ao mesmo tempo, como risco de exclusão para quem não consegue acompanhar as mudanças.
Instituições regionais destacam a necessidade de infraestrutura rural e de regras claras sobre propriedade de dados. A atuação conjunta de governos, ONGs e setor privado é apontada como essencial para ampliar benefícios.
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