- Relatório defende que florestas devem ocupar lugar central na adaptação climática e na segurança econômica do Brasil, e será apresentado nas COPs da ONU.
- Valor econômico das florestas vai além dos créditos de carbono, atuando como infraestrutura natural para reduzir riscos climáticos e apoiar a produção econômica.
- Agropecuária e conservação podem avançar juntas: grande parte da vegetação está preservada dentro de propriedades rurais, e áreas degradadas podem ser restauradas sem comprometer a produção.
- Potencial de expansão da cobertura florestal é significante, com estimativa de até 8 milhões de hectares até 2035; cerca de 2,6 milhões de hectares são aptos para restauração em cerca de 8 mil propriedades rurais; restauração pode movimentar até US$ 141 bilhões até 2050.
- Desafio de financiamento é destacado, com defesa de instrumentos de financiamento misto e garantias para atrair capital privado e ampliar recursos para conservação, restauração e silvicultura.
O estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global” defende que as florestas devem ocupar lugar central na estratégia econômica e climática do Brasil. A segunda edição foi produzida por uma coalizão de organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e representantes do setor privado, e será apresentada nas COPs da ONU deste ano. O objetivo é ampliar o papel das florestas na adaptação climática, na segurança econômica e na gestão de riscos, além de defender que produção rural, conservação e restauração avancem juntas.
O relatório explica que o valor das florestas vai além dos créditos de carbono. Em cenários de secas severas, incêndios e crises hídricas, as florestas seriam uma infraestrutura natural capaz de reduzir riscos e sustentar atividades econômicas. Roberta Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú, destaca o potencial de transformar o capital natural em uma classe de ativos com resultados em carbono, água, biodiversidade e segurança alimentar.
A análise reúne dados sobre conservação, restauração e silvicultura em todos os biomas do Brasil, incluindo Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e Zona Costeira. O estudo é assinado por institutos como Arapyaú, Itaúsa, Ibá, iCS, Imazon, Amazônia 2030 e CEBDS, com apoio da presidência da COP30. André Corrêa do Lago afirmou que o relatório ajuda a coordenar o mapa de ações da COP30 para frear o desmatamento.
Agropecuária como aliada
O documento sustenta que expansão florestal e produção agropecuária não precisam ser conflitantes. Grande parte da vegetação nativa já está preservada em propriedades rurais por meio de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, segundo o texto. Ao mesmo tempo, áreas degradadas podem ser restauradas sem comprometer a produção.
Rodrigo C. A. Lima, da Agroicone, diz que conservar florestas, restaurar e produzir são agendas complementares. O Brasil já tem grande parte da mata conservada em propriedades privadas e pode consolidar liderança conectando agricultura, florestas e soluções climáticas a longo prazo.
O relatório cita que, entre 2004 e 2012, o desmatamento na Amazônia caiu cerca de 80% embora a produção agropecuária tenha quase dobrado. O argumento é que a umidade gerada pela floresta sustenta chuvas que beneficiam o Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
Potencial de expansão de cobertura
A primeira edição apontou a possibilidade de ampliar a cobertura florestal de 517 milhões para 525 milhões de hectares até 2035. A segunda edição reforça esse potencial, apresentando 2,6 milhões de hectares aptos para restauração em cerca de 8 mil propriedades rurais, especialmente em pastagens degradadas.
A restauração pode abrir oportunidades nos mercados de carbono, biomateriais e bioenergia, além de contribuir para regularização de passivos ambientais. Projeções indicam que atividades de restauração podem movimentar até US$ 141 bilhões no Brasil até 2050.
Povos indígenas ganham destaque
O relatório reforça o papel de povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção de ecossistemas. Dados do Imazon indicam que terras indígenas responderam por apenas 3% do desmatamento na Amazônia entre 2012 e 2024, o menor índice entre as categorias monitoradas.
Os autores defendem ampliar o reconhecimento e o financiamento dessas populações para alcançar metas de conservação e restauração em larga escala. Beto Veríssimo, do Imazon, afirma que o Brasil tem condições únicas para liderar soluções baseadas na natureza no clima, segurança alimentar e resiliência econômica.
O desafio do financiamento
Embora haja reconhecimento, o relatório aponta que os recursos atuais para o setor são insuficientes. Para ampliar investimentos, são necessários instrumentos que reduzam riscos e atraiam capital privado, como modelos de financiamento misto e garantias específicas para projetos florestais.
Os autores defendem uma combinação de mecanismos de financiamento, não uma solução única. O estudo pretende influenciar negociações internacionais para que as florestas sejam vistas como ativos estratégicos para adaptação climática e resiliência econômica.
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