- Considerando apenas os afazeres domésticos, mulheres trabalham quase quarenta horas a mais por mês do que homens.
- Em dezembro de 2025, mulheres com emprego representavam quarenta e um vírgula quatro por cento dos trabalhadores formais, conforme o quinto Relatório de Transparência Salarial.
- A sobrecarga é maior entre mulheres negras; a desigualdade salarial segue, com diferença de vinte e um vírgula três por cento em relação aos homens.
- O caso de Larissa Lima Barros ilustra a dupla jornada: candidata a mãe, empregada, empresária e cuidadora dos pais, com rotina que vai de cinco da manhã até meia-noite.
- A Política Nacional de Cuidados, criada em 2024, visa distribuir responsabilidades entre homens e mulheres, mas a implementação depende de mudanças culturais e escolhas públicas.
O trabalho doméstico recai principalmente sobre as mulheres, mesmo quando elas ocupam postos formais. Em Sergipe, uma profissional com múltiplas funções mostra como a rotina de casa se interliga ao emprego. Ela atua em três empresas, é mãe de dois filhos e cuida dos pais, gerando uma sobrecarga diária. A situação não é única: muitas brasileiras conciliam trabalho remunerado e cuidados familiares.
Estudos recentes detalham a dimensão dessa sobrecarga. Dados do IBGE indicam que, isolando somente os afazeres domésticos, mulheres trabalham quase 40 horas a mais por mês que os homens. Ao considerar o trabalho formal, há ainda um déficit de remuneração: 21,3% menos ganhos médios para mulheres do que para homens. O cenário persiste mesmo com maior participação feminina no mercado.
A mudança ocupacional das mulheres, verificada desde os anos 1970, ampliou a visibilidade da sobrecarga. Pesquisadores apontam que o desgaste é compartilhado por mulheres de diferentes raças, classes e regiões, e não fica restrito a um grupo específico. Há controvérsia sobre narrativas de cansaço associadas a conquistas, segundo especialistas consultados.
O perfil de Larissa e a economia do cuidado
A história de Larissa Lima Barros, 29 anos, é emblemática. Casada, mãe de dois filhos de 3 e 4 anos, com emprego CLT e à frente de três empresas, ela também presta assistência aos pais. A rotina da família, segundo relatos, costuma funcionar entre o início da manhã e o fim da noite, com tarefas que vão desde a preparação de refeições à organização do lar.
Os relatos apontam que, mesmo com a rede de apoio, a exaustão é frequente. A mãe de Larissa já comete cobranças convencionais sobre quem cuida do lar, enquanto a profissional compartilha a responsabilidade de manter a casa e os cuidados com a saúde de familiares. A preocupação com a alimentação de um pai diabético também aparece na narrativa.
A situação de Larissa reflete a prática de manter atividades que se estendem aos fins de semana e feriados, quando há supermercado, preparo de refeições para a semana e visitas aos pais. A rotina, descrita como extensa, pode se estender em horários que vão da manhã até a noite.
Dados, políticas públicas e impactos
Estima-se que, se o trabalho doméstico fosse remunerado, o conjunto das atividades de cuidado acrescentaria ao menos 8,5% ao PIB, de acordo com estudo de 2023 do FGV Ibre. A relevância econômica da economia do cuidado é destacada por economistas ao discutir políticas públicas.
A desigualdade de gênero também é discutida sob a perspectiva racial e social. Pesquisadores apontam que o recorte de raça amplifica a distribuição de tarefas não remuneradas, com consequências para mulheres negras, brancas de renda baixa e outras demografias, abrindo espaço para políticas de equidade mais amplas.
A Política Nacional de Cuidados, institucionalizada em 2024, busca formalizar o direito ao cuidado e promover o compartilhamento das responsabilidades entre homens e mulheres. Resta a implementação prática nos níveis federal, estadual e municipal, exigindo mudanças culturais e engajamento institucional.
Perspectivas e desafios
Especialistas destacam que a efetividade depende do compromisso de governos e da transformação de hábitos sociais. Discutem ainda que desnaturalizar o trabalho invisível como atribuição exclusiva das mulheres é fundamental para avanços reais. A condução de políticas públicas alinhadas a esse objetivo é vista como essencial para reduzir a desigualdade de gênero.
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