- A indústria de private equity precisa de crescimento anual entre 10% e 12% de EBITDA para entregar retornos semelhantes aos de antes, segundo a Bain & Company em 2026, frente a cerca de 5% no passado.
- Entre 2010 e 2022, expansão de múltiplo e alavancagem responderam por 59% dos retornos globais, o que mudou com juros mais altos e múltiplos já pressionados.
- Hoje há menos espaço para ganhar com arbitragem financeira; fundos precisam colocar mais equity por aquisição e focar em melhoria operacional para criar valor.
- O modelo de valor passa a depender mais de execução operacional e menos de ciclos de crédito fáceis, favorecendo gestores diferenciados em ambientes mais desafiadores.
- No Brasil, historicamente mais dívida restrita levou a maior foco em melhoria operacional; estimativas da Spectra-Insper-ABVCAP (2023) apontam MOIC de 2,9x em dólar e 5,8x em real para fundos locais.
O private equity está enfrentando um ambiente mais duro, o que acentuou a diferença entre gestores que realmente constroem empresas e aqueles que apenas se beneficiaram do ciclo. A janela para venda de investimentos, segundo especialistas, começa a abrir, ao lado de uma nova rodada de captação.
A transformação é resumida pela Bain & Company em seu relatório de 2026: para alcançar o mesmo retorno, o crescimento de EBITDA precisa ficar entre 10% e 12% ao ano, frente a 5% do ciclo anterior. O custo do capital e a pressão de múltiplos alteram a matemática de valor.
Historicamente, juros baixos e liquidez alta permitiram aquisições com dívida barata e valorização automática dos ativos. Assim, gestores não precisavam transformar radicalmente as companhias investidas para entregar bons retornos, que vinham também do cenário macroeconômico.
No private equity, os retornos vêm de três pilares: expansão de múltiplos, crescimento operacional e alavancagem. A diferença entre gestores reside na proporção entre esses motores, que hoje favorece a execução operacional sobre a arbitragem financeira.
Estudos citados pela McKinsey, com base na StepStone Group, apontam que expansão de múltiplos e alavancagem responderam por 59% dos retornos globais entre 2010 e 2022. Com juros mais altos, é preciso mais equity por aquisição e há menos espaço para explosões de preço na venda.
Isso não significa que a engenharia financeira tenha sumido. A alavancagem continua válida quando usada com disciplina, e aquisições em ciclos baixos para venda em momentos favoráveis permanecem parte do trabalho. Porém, a qualidade operacional ganha destaque.
A Apollo Global Management define o momento atual como “private equity returning to its roots”, com menor dependência de arbitragem financeira e maior foco na execução. O ambiente tende a premiar gestores realmente diferenciados, em especial quando o custo de capital é mais alto.
No Brasil, a dinâmica aparece mais cedo. Juros elevados e crédito para aquisições menos abundante fizeram com que fundos nacionais operassem com menos dívida e dependessem mais da melhoria operacional, explica a análise regional.
Existe também uma nuance: o aumento de múltiplos no Brasil refletiu mudanças reais na economia, como formalização e desenvolvimento do mercado de capitais. Em saúde, tecnologia, educação e serviços financeiros, houve ganhos operacionais e reprecificação estrutural.
Ainda assim, a maior parte do retorno brasileiro veio da melhoria operacional. Estudos como o Spectra-Insper-ABVCAP de 2023 indicam MOIC médio de 2,9x em dólar e 5,8x em real para fundos nacionais, reflexo da desvalorização cambial ao longo dos anos.
Operar melhor envolve profissionalizar gestão, implantar sistemas, melhorar capital de giro, renegociar contratos e buscar eficiência. Também inclui consolidar setores via buy-and-build, estratégia de crescer por meio de aquisições complementares para gerar sinergias.
Para muitos, o diferencial não está em uma ideia revolucionária, mas na execução consistente de pequenas melhorias ao longo do tempo. Essa capacidade costuma separar quem constrói valor real de quem depende do ciclo de dinheiro.
Neste cenário mais exigente, a indústria tende a separar claramente quem sabe construir empresas de quem apenas aproveitou o ciclo. A próxima coluna discutirá como medir esse desempenho e quais perguntas fazer aos gestores.
Marina Procknor é sócia do Mattos Filho e vice-presidente da ABVCap.
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