- A CVM alterou a obrigação de divulgação de relatórios de clima e sustentabilidade por empresas de capital aberto, mas isso não muda as forças que tornam a gestão climática uma questão de sobrevivência.
- Riscos relacionados à sustentabilidade existem independentemente de regulamentação ou consenso político; eventos climáticos e violações de direitos humanos afetam balanços com ou sem relatório.
- Regulamentação, ainda que imperfeita, é essencial para nivelar a competição e orientar o mercado; mudanças regulatórias refletem disputas políticas, não a validade da agenda.
- Relatório não é gestão: ele funciona como termômetro; empresas que apenas reportaram sem mudar processos permanecem expostas, enquanto quem integrou gestão de riscos sai mais preparada.
- Em setores de alto impacto, como mineração, agronegócio, energia e infraestrutura, há convergência entre finanças e proteção socioambiental; a atenção a clientes e financiadores continua relevante.
O que não pode ser revogado: mudanças na divulgação de relatórios de clima não alteram os riscos que tornam a gestão socioambiental prioridade para as empresas. A CVM ajustou regras de sustentabilidade, mas não muda o cenário de sobrevivência corporativa em meio a impactos climáticos.
O texto destaca que a obrigação de divulgação foi flexibilizada, não eliminando as forças que tornam a gestão climática essencial. Riscos ambientais existem independentemente de consenso político ou de modelos científicos.
A realidade não aguarda aprovação regulatória: enchentes, secas e eventos climáticos extremos afetam cadeias de suprimento, preços e disponibilidade de alimentos. Acidentes industriais causam perdas humanas e financeiras, refletidas em balanços com ou sem relatórios.
Regulações cumprem função de nivelar competição e direcionar o mercado. Mesmo imperfeitas, elas ajudam a evitar penalização de empresas que atuam corretamente. Mudanças regulatórias refletidas em várias jurisdições indicam disputa política, não validade da agenda.
Relatórios não são gestão: reporte funciona como termômetro, não remédio. Quem não alterou processos ao produzir os relatórios enfrentou problemas, enquanto quem incorporou riscos climáticos se tornou mais resiliente. O mercado não recuou, apenas mudou a linguagem.
A convergência entre finanças e proteção socioambiental é mais evidente em setores de impacto direto como mineração, agronegócio, energia e infraestrutura. Cuidar de comunidades e meio ambiente reduz riscos e melhora o desempenho. Em outros setores, a percepção pode ser menos imediata, mas a lógica avança.
Essa visão permite enxergar com clareza as condições operacionais, identificando riscos concretos, exigências de clientes e financiadores, e ineficiências que a pressão regulatória ajudou a endereçar por mérito econômico.
Historicamente, empresas que confundiram flexibilização regulatória com suma da agenda acabaram pagando o custo. A lição está na prática: gestão de riscos supera simples divulgação, e as consequências aparecem quando apenas relatórios são feitos.
A reflexão para os conselhos hoje não é se deve continuar reportando, mas se os riscos que afetam operações nas próximas décadas estão sendo geridos ou apenas declarados.
— André Winter é sócio-diretor de ESG da KPMG no Brasil.
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