- Copom manteve a postura de juros restritivos, não sinalizando corte da Selic neste momento.
- O horizonte relevante foi deslocado para o primeiro trimestre de 2028 para acomodar a projeção, e não houve justificativa técnica para o alongamento.
- A inflação está acima da meta, com leituras recentes e projeções que continuam distantes do objetivo (expectativas de 2026 em 5,30% e de 2027 em 4,10%).
- O BC indicou preocupação com o risco de a inflação convergir abaixo da meta, o que evidencia assimetria na banda de tolerância do regime de metas.
- O texto reforçou que o alongamento do horizonte enfraquece a credibilidade da âncora monetária e torna mais cara a manutenção de metas no longo prazo.
O Copom informou nesta quarta-feira que estender o horizonte de convergência da meta de inflação não é neutro e pode equivaler a mudar a meta sem ajuste formal. O texto destaca que a inflação atual está acima da meta e que a atividade econômica aquece o primeiro trimestre, com mercado de trabalho resiliente.
A comunicação também aponta que, apesar da inflação já ter ficado acima da meta, o comitê manteve o tom de cautela frente a pressões de demanda. O cenário inclui estímulos à demanda, especialmente ao consumo, que fortalecem os canais de transmissão da política monetária.
Embora a projeção para o horizonte relevante estivesse em 3,7% no quarto trimestre de 2027, acima da meta, não havia justificativa para um corte de juros. Nesse ponto, o Copom introduziu um argumento: deslocar o horizonte para o primeiro trimestre de 2028, para que a trajetória prevista parecesse mais alinhada com a decisão já tomada.
Deslocamento do horizonte
Segundo o comunicado, o alinhamento da projeção com a decisão ocorreu ao se ampliar o horizonte até 2028. A mudança não foi apresentada como ajuste técnico, e sim como uma forma de acomodar a trajetória prevista sem violar a disciplina de metas.
Risco de inflação abaixo da meta
O texto também aponta preocupação com a inflação convergindo abaixo da meta. Questiona-se, assim, a função da banda de tolerância do regime de metas, que costuma acolher choques e defasagens. Em ambiente com expectativas desancoradas, a justificativa para assimetria revela fragilidade na credibilidade do regime.
A questão central é que ampliar o horizonte reduz a disciplina sobre decisões atuais e aumenta a margem para desvios. A crítica é que o custo de manter a ancoragem das expectativas fica mais alto sem contrapartida fiscal adequada.
O aviso do Copom sugere que desacelerar a atividade para trazer a inflação à meta, pelo caminho tradicional de política monetária restritiva, continua sendo o canal desejado. A ata, contudo, sinaliza que a comunicação pode enfraquecer a eficácia dessa reação no próximo ciclo.
O resultado é uma perspectiva de maior fragilidade da âncora monetária, que permanece como o principal instrumento para ancorar expectativas em um cenário de incerteza fiscal. A repercussão da reunião tende a provocar leitura cautelosa sobre trajetórias de juros futuras.
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