- Keynes, em 1930, projetou jornadas de trabalho de 15 horas semanais e uma sociedade economicamente oito vezes mais rica daqui a cerca de cem anos, valorizando cultura, lazer e desenvolvimento pessoal.
- O economista argumentou que o progresso tecnológico e a acumulação de capital aumentariam a produtividade, reduzindo a necessidade de trabalho humano.
- No curto prazo haveria desemprego tecnológico; no longo prazo, seria possível manter o padrão de vida trabalhando menos.
- O motivo de não ter ocorrido, segundo especialistas, envolve consumo crescente, distribuição desigual dos ganhos de produtividade e aumento de necessidades, o que levou as inovações a beneficiar mais quem já detém capital.
- A ideia de Keynes influenciou políticas de intervenção do Estado para pleno emprego; hoje, debates atuais incluem automação, IA e como distribuir melhor os ganhos da produtividade.
O economista britânico John Maynard Keynes pesquisou como seria o mundo quando as tecnologias aumentassem a produção com menos trabalho humano. Em 1930, ele publicou o ensaio Possibilidades Econômicas para Nossos Netos, buscando separar pessimismo de realismo. O texto surge no contexto da Grande Depressão e de mudanças rápidas na indústria.
Keynes imaginou que, ao longo de cerca de um século, países desenvolvidos poderiam alcançar níveis de riqueza muito superiores. A tecnologia permitiria produzir mais com menos labor, gerando um desemprego temporário, mas abrindo espaço para novas formas de ocupação e menos pressão sobre as necessidades básicas.
O eixo central da previsão era a redução da jornada de trabalho para que todos tivessem emprego. Em vez de apenas acumular riqueza, a sociedade ganharia tempo para cultura, lazer e desenvolvimento pessoal. Assim, o tempo livre seria convertido em bem-estar e consumo qualificado.
Contexto e perspectivas
A leitura de Pelatieri, diretora-adjunta do Dieese, reforça que o ensaio é referência clássica de Keynes. Ela explica que a proposta surgiu de debates sobre crise, emprego e o papel do Estado na economia. O pensamento questionava o dogma de que mais trabalho equivale a mais riqueza.
Para o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, a visão keynesiana confronta o pressuposto de que maior produtividade sempre gera maior riqueza para todos. A ideia era que reduzir a jornada, associada ao progresso tecnológico, pudesse melhorar a qualidade de vida sem reduzir o nível de bem-estar.
Por que a previsão não se confirmou
Especialistas ressaltam que a produtividade cresce, mas o consumo também aumentou. Lohbauer aponta que, mesmo com avanços, as pessoas buscam mais lazer, consumo e serviços, o que exige mais horas de trabalho ou renda suficiente para sustentar esse consumo. A distribuição de ganhos também foi desigual.
Pelatieri lembra que Keynes separava necessidades básicas de desejos sociais. As inovações criaram novas demandas, ampliando o que é considerado essencial. Parte dos lucros ficou com capitais e rendimentos, não com salários, dificultando a redução da jornada.
Implicações históricas
Ramos, jurista, destaca que a era de Keynes coincidiu com jornadas laborais longas e com intervenções estatais para evitar crises. O foco do pensador era preservar o pleno emprego por meio de políticas públicas, não apenas depender do livre mercado. A ideia defendia regulação para equilibrar ganhos e emprego.
No conjunto, o debate enfatiza que reduzir a jornada exige mudanças na distribuição de renda e no uso dos ganhos de produtividade. O tema permanece relevante diante de novas tecnologias, automação e inteligência artificial, que alteram o equilíbrio entre trabalho, consumo e bem-estar.
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