- Fugas dos fundos de infraestrutura somam cerca de R$ 34,3 bilhões desde março, conforme relatório do Bradesco BBI, o que representa aproximadamente 13,7% do patrimônio estimado da indústria (R$ 250 bilhões).
- Enquanto fundos de crédito tradicionais se recuperaram, os de infraestrutura, com isenção de IR, seguem com retiradas em ritmo maior.
- Em maio, houve retirada de R$ 15,2 bilhões, e até o dia 12 de junho as saídas somavam R$ 4 bilhões, segundo a Bradesco BBI.
- Em amostra monitorada pela Porto Asset, junho registrou pico de retiradas, com cerca de 15% do patrimônio dos fundos de infraestrutura observados pela gestora rescindindo investimentos.
- Motivos citados incluem demanda atípica de 2023, necessidade de aumento da participação em debêntures incentivadas e mudanças regulatórias que redirecionaram demanda para esse segmento, além de ajustes após recuperações extrajudiciais anunciadas por Raízen e Grupo Pão de Açúcar.
A fuga dos fundos de infraestrutura agravou a diferença entre categorias de crédito privado no Brasil. Segundo relatório do Bradesco BBI, as retiradas somaram 34,3 bilhões de reais desde março, enquanto os fundos de crédito tradicionais captaram 1,4 bilhão em junho até o dia 12. O montante representa cerca de 13,7% do patrimônio estimado da indústria, em 250 bilhões de reais.
Essa dinâmica ocorreu em meio a uma demanda atípica, com pressão para que fundos de infraestrutura aumentem a alocação em debêntures isentas até chegar a 85% do patrimônio. Em março, recuperação extrajudicial de Raízen e Grupo Pão de Açúcar ampliou o cenário de incertezas no segmento, impactando cotas de alguns fundos, inclusive em bolsa.
Demanda anormal
Dados mostram que a linha de crédito para infraestrutura cresceu desde 2023, puxada por emissões incentivadas e maior apetite de investidores. Em 2024, restrições a CRAs, CRIs e prazos de LCIs/LCAs redirecionaram parte da demanda para esses fundos, segundo Vinicius Romero, da XP Asset. Com a expectativa de tributação, o prêmio pelo risco caiu, mas ainda incentivou investimentos.
A adoção de tributação em 2025 elevou a atratividade dos fundos de infraestrutura, até a caducidade da MP 1.330 em outubro. Mesmo assim, muitos gestores passaram a exigir maior concentração em debêntures isentas, elevando o custo de captação e comprimindo retornos.
Cenário de liquidez e desempenho
Em março, a piora de crédito e tensões geopolíticas elevaram o prêmio de risco, pressionando a duração média dos ativos para cerca de 5,5 anos. No mapa de gestores, Itaú Asset reportou resgates de 5% do patrimônio de seus fundos, bem abaixo da média da indústria, que chegou a 15% em junho em alguns casos.
A XP Asset indicou que não possuía posição em Raízen no anúncio de recuperação extrajudicial, ressaltando que títulos de infraestrutura apresentam prazo de risco de aproximadamente 4 anos e composição diversificada com forte peso no setor elétrico e saneamento. A carteira da gestora soma mais de 100 emissores.
Perspectivas e estratégias
Especialistas veem oportunidade de entrada para quem ainda não investe no setor, com relação risco-retorno favorecida. Em janeiro, o retorno era próximo ao Tesouro IPCA menos 0,5 ponto, e hoje fica acima do título público com prêmio de aproximadamente 0,5 ponto percentual ao redor do IPCA, dependendo do índice referencial.
Para alguns analistas, o prêmio extra está mais alinhado com o nível de risco atual, enquanto outros argumentam que houve uma correção que torna o retorno mais moderado, ainda assim competitivo frente a alternativas de renda fixa. Gestores destacam que fundos indexados à inflação podem oferecer maior volatilidade, porém com perfil mais estável para longo prazo.
Observações de gestão
A Itaú Asset ressalta a pulverização das carteiras, com cerca de 3,5% de participação em Raízen dentro de seus fundos, frente a 5% a 7% observados na média de mercado. O banco aponta que, apesar da concentração setorial, diversificação permanece como estratégia para reduzir impactos de eventos específicos.
Daniel Palaia, da Asset1, avalia que o prêmio atual está próximo de níveis vistos há um ano e meio, sugerindo que algumas oportunidades podem surgir conforme a demanda se estabiliza. A XP Asset aponta que, entre os ativos, há espaço para comparação entre retorno ajustado pela isenção fiscal e o desempenho de outros títulos.
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