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Antes de culpar as apostas, é preciso analisar o papel dos bancos

Bancos endividam 81,7 milhões de brasileiros com juros até 61% ao ano; 270 mil famílias entram em inadimplência severa, aponta Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)

As séries históricas comprovam que o endividamento das famílias brasileiras não nasceu com as bets, afirma o articulista; na imagem, aplicativo de bets no celular
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  • A CNC divulgou estudo que aponta 270 mil famílias entraram em inadimplência severa por causas relacionadas às apostas online.
  • O endividamento total de brasileiros chegou a 81,7 milhões, com alta de 38% em uma década e juros que podem chegar a 61% ao ano.
  • O debate sobre as bets ocorre em meio a uma tradição de endividamento, com o governo e bancos sob críticas pela rigidez de crédito e juros.
  • O governo criou ações regulatórias, como a portaria nº 2.579 e a instrução normativa nº 31, que estabelecem autoexclusão, autolimites e um banco de dados de apostadores com comportamento compulsivo.
  • Além disso, houve bloqueio de 50.000 sites não autorizados em parceria entre a Secretaria de Prêmios e Apostas e a Anatel, enquanto o mercado clandestino continua ativo.

O estudo da CNC aponta que as bets contribuíram para a inadimplência de 270 mil famílias, divulgado em abril deste ano. Ainda assim, o crédito concedido pelos bancos atingiu 81,7 milhões de brasileiros, com alta de 38% em uma década. Juros chegam a 61% ao ano, enquanto não há bancada suprapartidária para enfrentar o tema.

As séries históricas mostram que o endividamento não nasceu com as apostas online. Juros reais elevados, spread bancário entre os maiores do mundo e uma estrutura de crédito que penaliza quem tem menos são fatores estruturais. A Selic, acima de 14%, favorece rentistas e restringe o crédito ao trabalhador, aumentando a vulnerabilidade financeira das famílias.

O projeto Brasil contra as bets, protocolado em 26 de maio no Congresso por uma bancada suprapartidária, parte da premissa de que o jogo compulsivo causa danos reais. Estima-se, com base em estudo do Ieps, um impacto de até R$ 38,8 bilhões anuais ligado ao jogo problemático. Contudo, o diagnóstico e o remédio apresentados são contestados por especialistas e parlamentares.

Apesar da necessidade de regulamentação do setor, há ressalvas sobre a eficácia das medidas propostas. A autorização de mecanismos de proteção já existe com a Secretaria de Prêmios e Apostas, que publicou portaria e instrução normativa para autoexclusão, autolimites de apostas e um banco de dados de apostadores com comportamento compulsivo. A ideia é reduzir danos sem eliminar a oferta legal.

As operadoras licenciadas recolhem impostos e são fiscalizadas, com registros de quase R$ 10 bilhões em 2025 e cerca de R$ 2,5 bilhões nos dois primeiros meses de 2026. Em parceria com a Anatel, já houve bloqueio de 50.000 sites não autorizados, evidenciando o tamanho do mercado paralelo que coexistiria com o regulado.

A tendência de endividamento permanece alta independentemente das bets. O público total endividado cresceu 38,1% entre 2016 e 2026, segundo a CNC, enquanto o percentual de famílias com dívidas atingiu recorde de 80,4% em março. O debate público, portanto, ainda precisa discutir o peso do rentismo na fragilidade financeira da população.

O ponto central do debate não é apenas a proibição das bets, mas a necessidade de reduzir a vulnerabilidade financeira da população. Questiona-se por que o rentismo recebe menos resistência pública do que as apostas, que ganham visibilidade como alvo político. A discussão envolve políticas de crédito, regulação de publicidade e enfrentamento ao mercado clandestino.

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