- Estudo da London School of Economics e do Instituto de Clima e Sociedade aponta que o Brasil pode ganhar até 1,5 ponto percentual no PIB médio prazo com a transição para energia limpa.
- A corrida global por economia de baixo carbono deve somar US$ 5,6 trilhões anuais entre 2025 e 2030, com setores como aço, químicos e fertilizantes recebendo entre US$ 600 bilhões e US$ 800 bilhões por ano.
- O Brasil tem vantagem competitiva com uma matriz elétrica já composta por 90% de fontes renováveis (56% hidrelétrica; 23% eólica/solar) e custos de energia acessíveis (LCOE: eólica US$ 33,6 por MWh; solar US$ 46 por MWh).
- O Nordeste surge como polo promissor de “powershoring”, com possível captação de até US$ 30 bilhões em investimentos até 2035, gerando cerca de 1,8% do PIB regional e até 300 mil a 350 mil empregos; mineração e agronegócio também são destaque.
- Desafios macroeconômicos persistem (crescimento próximo de 2% em 2026-2027, inflação em torno de 4% a 4,5%, Selic entre 12,5% e 13,5%) e a solução apontada envolve reformas fiscais e mecanismos de financiamento verde (Orçamento Verde, Fundo Clima, Eco Invest Brasil) para ampliar o capital privado e sustentar investimentos de longo prazo.
O Brasil pode alcançar até 1,5 ponto percentuais do PIB com a transição global para energia limpa, aponta estudo da LSE em parceria com o iCS. Impacto seria fruto de investimentos em baixo carbono entre 2025 e 2030.
A transição energética já mobiliza recursos significativos. Em 2024, aportes globais passaram de US$ 4 trilhões; entre 2025 e 2030 devem chegar a US$ 5,6 trilhões por ano, segundo o estudo. Segmentos como aço, químicos e fertilizantes recebem parte relevante.
O Brasil desponta como polo para transformar a transição ecológica em desenvolvimento econômico, geração de empregos e ganho de produtividade, segundo o relatório. O país seria destacado entre EMDEs pela atração de capital produtivo.
Jorge Arbache, professor da UnB e um dos autores, afirma que a energia limpa tende a suprir a indústria, invertendo o padrão anterior de consumo de energia. O desafio é converter vantagens estruturais em investimentos sustentáveis.
Maria Netto, diretora executiva do iCS, destaca que o Brasil oferece segurança em energia limpa, minerais críticos e biocombustíveis, além de relações com produção responsável. Essas três áreas atraem investimentos.
O estudo sustenta que o Brasil passou a deter ativos-instrumentos para atrair capital necessário, mesmo com participação modesta na redistribuição de capital, o PIB brasileiro poderia crescer entre 1% e 1,5% ao longo do médio prazo.
No momento, o PIB brasileiro ficou em R$ 3,25 trilhões no 1º trimestre de 2026. Em 2025, houve crescimento de 2,3%, fechando o ano em R$ 12,7 trilhões. Os números embasam as projeções do estudo.
Luiz Awazu Pereira da Silva, professor visitante do CETEx, afirma que mudanças climáticas, tecnologia e geopolítica redesenham padrões de investimento. O Brasil precisa converter essas oportunidades em resultados reais.
O relatório explica a lógica do powershoring, em que cadeias produtivas se deslocam para energia limpa abundante. O Brasil opera hoje com cerca de 90% de fontes renováveis, com 56% em hidrelétrica e 23% em eólica e solar.
Em termos de custo de energia, a eólica onshore no Brasil atinge LCOE de US$ 33,6 por MWh, e a solar, US$ 46 por MWh. Valores são inferiores a referências na Bélgica e no Japão, fortalecendo a competitividade brasileira.
A vantagem se reflete na siderurgia verde: produzir aço com emissões próximas de zero custa entre US$ 700 e US$ 900 por tonelada na Europa, enquanto no Brasil fica entre US$ 550 e US$ 750 por tonelada.
Minerais críticos também devem favorecer o Brasil, com reservas de bauxita, nióbio, grafite, terras raras e lítio. Aumentar o processamento doméstico pode elevar o valor da produção de US$ 5,4 bilhões para até US$ 15,6 bilhões em 2030.
A região Nordeste surge como polo estratégico para o powershoring, com potencial de investimentos próximos a US$ 30 bilhões até 2035 e geração anual de US$ 5,25 bilhões em média, além de criação de milhar de empregos.
O estudo aponta impactos regionais: parques solares elevam o PIB municipal em até 23% e parques eólicos geram crescimento de cerca de 12%. O retorno socioeconômico é destacado como principal benefício.
O agronegócio aparece como suporte à transição com participação de 7,54% do PIB e exportações de US$ 169 bilhões em 2025. A agricultura representa 60% da energia renovável da matriz brasileira.
O Plano Clima 2026 projeta ampliar etanol de milho para 1,6 bilhão de litros de SAF até 2030 e até 4,5 bilhões até 2035, integrando BECCS aos biocombustíveis. O objetivo é ampliar a descarbonização do setor.
Desafios macroeconômicos aparecem como entrave. O estudo prevê crescimento do PIB abaixo de 2% ao ano em 2026-2027, com inflação entre 4% e 4,5% e Selic entre 12,5% e 13,5% em 2027. A dívida pública deve permanecer acima de 80% do PIB.
Para viabilizar a transição, o estudo sugere ampliar participação de capital privado via três camadas: orçamento verde, Fundo Clima e Eco Invest Brasil, além de novos mecanismos. A ideia é reduzir riscos e atrair mais investimentos.
Revisões administrativas também são propostas: spending reviews para economias de cerca de 0,2% do PIB e mudanças na indexação do orçamento para reduzir gastos obrigatórios. O objetivo é abrir espaço para investimentos estratégicos.
Segundo as simulações, investimentos de R$ 25 bilhões anuais em fundos climáticos e mobilização privada podem reduzir a dívida/PIB para 7,8% em 2036, caso mantidos os programas, ou levar a 120,6% sem reformas.
O estudo aponta ainda a possibilidade de criar um fundo soberano com parte das receitas de petróleo e gás, para financiar infraestrutura de baixo carbono de forma estável, independentemente das flutuações de commodities.
Por fim, recomenda incorporar ativos do setor público na avaliação de solidez fiscal, para reduzir premium de risco soberano e manter o Brasil em linha com até o retorno do rating de investimento no longo prazo.
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