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Colheita na Zâmbia mascara insegurança alimentar diante de geopolítica e clima

Apesar da safra de milho recorde, insegurança alimentar persiste em Zâmbia pela dependência de fertilizantes e combustíveis importados, além de riscos climáticos

Maize is Zambia's staple food. Here a farmer in Kafue district, South of Lusaka City showcases part of their harvest this year. Picture by Chisapi Kumbutso.
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  • Conflitos no Golfo podem interromper o fornecimento de combustível e fertilizantes via estreito de Hormuz, elevando o risco de insegurança alimentar na Zâmbia.
  • A safra de milho na Zâmbia tende a superar a média pelo segundo ano seguido, com queda de preços do milho e do fubá em relação ao ano passado.
  • A FAO aponta chuvas desde outubro e reservatórios estáveis, o que deve sustentar boa safra de milho e facilitar a recuperação da safra de trigo.
  • 1,7 milhão de pessoas enfrentaram níveis de insegurança alimentar aguda de crise nos seis meses até março de 2026, indicativo de vulnerabilidade mesmo com safras fortes.
  • A maior fragilidade é a dependência de importações: cerca de 32% a mais em compras agrícolas em 2024; El Niño e preços de fertilizantes/diesel podem pressionar os custos e a produção, reforçando a necessidade de irrigação e produção local.

Zâmbia registra safra robusta de milho, mas o país mantém vulnerabilidades estruturais que podem surgir com choques externos. Especialistas destacam que conflitos no Golfo Pérsico poderiam afetar o fornecimento de combustível, fertilizantes e insumos agrícolas, elevando riscos na produtividade.

A produção de milho depende de chuvas, irrigação e insumos importados. O FAO aponta previsão de safras acima da média graças às chuvas desde outubro passado, com possíveis ganhos na cultura de trigo. Preços locais de milho e de fubá recuaram em comparação com o ano anterior.

Dados da FAO indicam queda de preços de referência do milho em 25% na comparação interanual, em março. Já o milho para consumo diário teve recuo de 15% segundo a estatística pública local. Mesmo assim, ainda existem 1,7 milhão de zambianos em situação de insegurança alimentar de crise nos últimos seis meses até março.

Dependência de importações

Quase 40% da população vive em áreas urbanas, onde o alimento é adquirido principalmente no mercado. Consumidores urbanos são particularmente sensíveis a mudanças de preços e a interrupções nas cadeias de suprimento, segundo especialistas.

Entre 2023 e 2024, Zambia importou aproximadamente 797 milhões de dólares em produtos agroalimentares, um aumento de 32% frente ao ano anterior. África do Sul figura como principal fornecedora de trigo, farinha e alimentos processados.

Desafios de longo prazo

A alta dependência de fertilizantes importados permanece como fator de risco. Antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, o país importava mais de 110 milhões de dólares de fertilizantes de nações produtoras. Pesquisadores apontam a necessidade de ampliar irrigação, produção local de insumos e práticas climato-compatíveis para reduzir vulnerabilidade a choques globais.

Lungu, da Federação Nacional de Agricultores, ressalta que eventos mundiais afetam a agricultura local. Investimentos em irrigação e em fertilizantes locais são citados como caminhos para aumentar a resiliência frente a variações climáticas e à volatilidade dos mercados.

Olhando para o futuro

Apesar da boa safra de milho, o planejamento para a próxima temporada já começa. Pequenos agricultores podem reduzir área plantada ou fertilizante diante de preços elevados de combustíveis e insumos. A chuva continua sendo rotina, o que eleva o peso do risco deぃ secas e enchentes.

Especialistas destacam que o futuro da segurança alimentar depende de um sistema mais autossuficiente, com maior produção local de fertilizantes, armazéns melhores e ampliação da irrigação. Essas medidas são vistas como essenciais para enfrentar choques climáticos, volatilidade de preços e dependência de mercados externos.

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