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Argentina revela lições de uma agenda econômica ousada

Argentina mostra que ajuste fiscal com cortes de gastos derrubou inflação e pobreza, aumentando credibilidade econômica e atraindo investimentos

Roberto Campos Neto
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  • A Argentina implementou reformas liberais nos dois últimos anos, com foco no equilíbrio fiscal e na liberdade econômica, para estabilizar a economia.
  • O déficit fiscal de mais de cinco por cento do PIB virou superávit, com queda de cerca de cinco pontos percentuais nas despesas públicas.
  • A inflação caiu de mais de duzentos por cento ao ano para menos de três por cento ao mês, e o risco-país caiu de mais de dois mil para menos de quinhentos pontos.
  • A pobreza recuou de cinquenta e dois vírgula nove por cento para vinte e oito vírgula dois por cento no segundo semestre de dois mil e vinte e cinco.
  • As medidas incluíram desregulação ampla (mais de dez mil normas revistas ou revogadas), expansão de conectividade via internet via satélite e abertura comercial, com destaque para o acordo Mercosul-União Europeia e incremento de investimentos em energia e mineração.

O governo argentino implementou nos últimos dois anos um conjunto de reformas liberais com foco no controle de gastos, redução do déficit fiscal e desregululação. A mudança foi acompanhada por queda expressiva da inflação e melhora de indicadores sociais, após um ciclo de alta volatilidade econômica.

No fim de 2023, a inflação ultrapassava 200% ao ano, o déficit público era relevante e as reservas internacionais estavam negativas. O governo iniciou a consolidação orçamentária e o ajuste fiscal, com o objetivo de estabilizar a economia e repor a credibilidade externa. A medida central foi reduzir gastos públicos para alterar a trajetória fiscal.

O resultado veio com o tempo: o déficit do setor público passou a gerar superávit em 2025, segundo o FMI, pela primeira vez em 15 anos. O gasto caiu próximo de cinco pontos do PIB. A economia cresceu 4,4% em 2025, com expectativa de 3,5% para 2026, apontam análises e projeções oficiais.

Desregulamentação e liberdades econômicas

A agenda de desregulamentação foi marcada pela revogação de mais de 15.500 normas, reduzindo entraves ao funcionamento de empresas. Nesse período, medidas como a liberação de internet via satélite ampliaram acesso a 3 milhões de usuários, especialmente em regiões sem alternativa.

No mercado de aluguéis, a retirada de controles de preço levou à queda de cerca de 30% nos preços reais e ao aumento da oferta de imóveis. Essas mudanças visam favorecer a competição e reduzir custos para consumidores e pequenos negócios.

Resultados sociais e inserção internacional

A inflação, que superava 200% ao ano, recuou para menos de 3% ao mês, ajudando a conter a erosão da renda. O risco-país caiu de mais de 2.000 para menos de 500 pontos, sinalizando menor custo de financiamento externo.

A pobreza, que atingia cerca de 52,9% da população, recuou para 28,2% no segundo semestre de 2025, após o controle inflacionário. Na inserção internacional, o país avançou em acordos comerciais, com destaque para o Mercosul e a União Europeia, além de crescimento das exportações, estimadas em alta de 34% frente ao ano anterior.

Lições para o Brasil

Especialistas destacam que o ajuste fiscal guiado pela contenção de gastos pode ser menos recessivo do que se imagina, desde que acompanhado de credibilidade e continuidade. A Argentina demonstra que a confiança reduz o prêmio de risco e estimula investimento privado, desde que haja planejamento sólido.

A experiência também reforça a importância de um ambiente regulatório estável e previsível para atrair capital de longo prazo. A transformação do Estado, com eficiência e menor custo, é vista como condição essencial para sustentar o crescimento em cenários de restrição fiscal.

O cenário geopolítico favorece posições de países com recursos estratégicos. O Brasil aparece com potencial na área de energia renovável e minerais, mas precisa manter disciplina fiscal, clareza regulatória e segurança jurídica para aproveitar a janela de oportunidades internacionais.

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