- Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio, índice verificado pela Recicla Latas em 2024, mantendo acima de 96% por 16 anos.
- Ainda assim, menos de nove por cento do total de resíduos sólidos urbanos é efetivamente reaproveitado.
- Cerca de quarenta por cento do material que chega a cooperativas de catadores vai para o aterro.
- Entraves principais: tributação sobre o material reciclado, infraestrutura/ logística insuficiente e o uso de créditos de compensação que nem sempre levam à rota completa de reciclagem.
- Soluções sugeridas: digitalizar a cadeia, criar subsídios para fechar a equação econômica, reforçar regras de comunicação nas embalagens e investir em infraestrutura nas cooperativas (esteira, piso, teto).
O Brasil enfrenta uma dicotomia entre o que é reciclável e o que é reciclado. Embalagens com potencial de reaproveitamento existem, assim como a tecnologia para processá-las. Contudo, nem toda embalagem reciclável chega a se tornar matéria-prima nova, o que expõe falhas da cadeia e impactos econômicos.
Segundo dados de 2024, o país recicla 97,3% das latas de alumínio, impulsionando 16 anos acima de 96%. Já no conjunto de resíduos sólidos urbanos, menos de 9% são efetivamente reaproveitados, conforme estudo da Abrema. A diferença entre reciclável e reciclado aumenta a percepção de risco reputacional para empresas.
Desempenho e gargalos da cadeia
Um estudo da Yattó aponta que 40% do material que chega a cooperativas de catadores retorna ao aterro. O mesmo trabalho indica que o valor de mercado e a logística influenciam a viabilidade econômica da reciclagem, especialmente fora dos grandes centros. A distância entre o potencial técnico e a prática diária é um dos principais entraves.
Estruturas de incentivo e custo público
A composição tributária é apontada como um obstáculo: o material reciclado é bitributado em relação à resina virgem, criando um desincentivo ao reaproveitamento. Além disso, a cadeia logística de retorno nem sempre fecha financeiramente, o que implica custos para municípios e cooperativas sem retorno imediato de receita.
Mudanças de embalagem e recebimento
Muitas empresas migraram para embalagens flexíveis monomateriais, reduzindo plástico e emissões de transporte. Contudo, essas embalagens nem sempre chegam a cooperativas com infraestrutura adequada, levando ao descarte em aterros. Reciclar envolve mais do que tecnologia: requer capacidade de recebimento, triagem e processamento.
Caminhos para a melhoria e governança
O uso de créditos de compensação, previsto em lei, nem sempre funciona como incentivo correto, havendo casos em que virou atalho para obtenção de selos sem percorrer a cadeia completa. A meta de reciclagem subiu nos últimos anos, mas a taxa geral permanece abaixo de 9%, aponta a Abrema.
Tecnologias como apoio, não redenção
A rastreabilidade por identificadores digitais e inteligência artificial pode transformar materiais hoje inviáveis em ativos tangíveis, desde que exista cadeia de processamento viável. Atualmente, a prioridade para cooperativas é infraestrutura: piso, teto e esteiras, mais do que soluções puramente digitais.
Conclusão provisória
O case da latinha demonstra que o Brasil tem capacidade de construir cadeias circulares eficientes quando há valor de mercado associado. A legislação avança em direções como penalidades ao greenwashing, mas ainda depende de melhoria estrutural para ampliar a reciclagem efetiva.
Luiz Grilo é formado em Processos Gerenciais pela FGV e atua como diretor comercial e de marketing na Yattó.
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