- O projeto de quinze anos reúne centenas de cartas escritas por povos indígenas e já catalogou mais de mil itens, com cerca de 1,3 mil disponíveis online, na plataforma As Cartas dos Povos Indígenas ao Brasil.
- As cartas, datadas de três períodos históricos — 1630-1680, 1888-1930 e 1999-2020 — tratam de cidadania, território e memória, destacando vozes coletivas.
- A iniciativa é coordenada pela professora Suzane Costa e pelo professor Rafael Xucuru-Kariri, da Universidade Federal da Bahia, que ressaltam a desconstrução da ideia de ausência de tradição escrita entre indígenas.
- Os documentos incluem requerimentos coloniais e cartas a autoridades; o período de 1630-1680 mostra resistência a direitos e territórios, o de 1888-1930 aborda cidadania na transição entre a abolição da escravatura e a Proclamação da República, e o de 1999-2020 denuncia crimes ambientais e violências.
- As cartas foram localizadas em arquivos na Holanda, em Portugal e no Brasil, com textos em tupi, português e latim, reforçando uma contra-história para educação e memória coletiva e destacando autoria coletiva dos povos.
Centenas de cartas escritas por povos indígenas ao longo de quatro séculos estão agora acessíveis na plataforma digital As Cartas dos Povos Indígenas ao Brasil. O projeto, que tem duração de 15 anos, busca reunir, traduzir e disponibilizar correspondências que recontam a história do Brasil sob uma nova perspectiva. Até o momento, mais de mil cartas foram catalogadas, com cerca de 1,3 mil disponíveis online.
Essas cartas, datadas de três períodos históricos significativos (1630-1680, 1888-1930 e 1999-2020), abordam temas como cidadania, território e memória. A iniciativa é coordenada pela professora Suzane Costa, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e pelo professor Rafael Xucuru-Kariri, também da UFBA. Eles enfatizam que a documentação desmistifica a ideia de que os indígenas não possuíam tradição escrita.
Contexto Histórico
Os documentos em questão incluem requerimentos coloniais e correspondências enviadas a autoridades, como presidentes e governadores. O período de 1630 a 1680 revela a resistência indígena em garantir seus direitos e territórios. No segundo período, de 1888 a 1930, as cartas abordam a transição entre a abolição da escravidão e a Proclamação da República, destacando a presença indígena nas discussões sobre cidadania.
O último período, que abrange 1999 a 2020, contém cartas contemporâneas que denunciam crimes ambientais e violências. Essas comunicações foram localizadas em arquivos na Holanda, Portugal e Brasil, com textos em tupi, português e latim.
A Voz dos Povos Indígenas
O projeto surgiu após uma carta coletiva dos Guarani Kaiowá, que expressou a urgência de suas demandas. Suzane Costa destaca que as cartas são uma forma de contra-história, essencial para a formação da narrativa oficial do Brasil. Para ela, a inclusão dessas cartas no material didático é fundamental para a educação e a memória coletiva.
Ao longo do processo de elaboração das cartas, os indígenas participam ativamente, garantindo que suas vozes e perspectivas sejam refletidas. Esse modelo de autoria coletiva desafia as concepções tradicionais de escrita e propriedade intelectual, reafirmando a importância do diálogo e da negociação na construção da identidade indígena.
As cartas não apenas documentam a história, mas também convocam a sociedade brasileira a refletir sobre suas relações com os povos originários, promovendo uma conversa necessária para a construção de um futuro mais inclusivo.
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