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O que aprendi sobre adolescentes após conversar com 150 meninas de 13 a 17

Entrevistas com cento e cinquenta meninas de treze a dezessete anos revelam que o olhar dos meninos ancora percepções, impactando escola, saúde mental e uso das redes

Ilustração de uma adolescente olhando para o telefone celular e, ao fundo um grupo de três meninos fazendo o mesmo
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  • Entrevistaram cerca de 150 meninas, com idades de 13 a 17 anos, que relatam observar a própria vida principalmente pelo que os meninos pensam ou sentem.
  • As meninas descrevem tentativas de se conter em grupos mistos, sendo vistas como “barulhentas” ou “intensas” e sentindo pressão para ocupar menos espaço.
  • Relatos de assédio e sexualização aparecem com frequência; pesquisas citadas destacam que muitas mudam o comportamento para evitar comentários ou insegurança.
  • No ambiente escolar, há preocupações com misoginia, queda no rendimento em inglês e matemática, e aumento do absenteísmo entre meninas; surgem clubes de meninas para discutir desigualdade, violência e saúde, entre outros temas.
  • As redes sociais são protagonistas do cotidiano, gerando ansiedade e pressão, ao mesmo tempo em que oferecem apoio; dados indicam que maioria dos jovens passa grande parte do tempo online, levantando a questão de espaços reais como alternativa.

Um repórter da BBC Radio 4 acompanhou 150 meninas de 13 a 17 anos em uma série sobre a vida das adolescentes, associando as entrevistas ao projeto About the Girls. A maior parte das conversas ocorreu em Carmarthen, no sudoeste do País de Gales, com participação de um grupo de cerca de 12 jovens do clube DRMZ.

As discussões revelaram que grande parte das meninas ainda se observa sob a ótica masculina. Em várias falas, elas enfatizaram como os meninos moldam a percepção de comportamento, humor e maneiras de se expressar em sala de aula e em ambientes sociais.

A pesquisa faz parte de uma continuidade da série About the Boys, que entrevistou jovens meninos no Reino Unido. A autora acompanhou as respostas ao longo de uma semana, durante visitas a escolas, centros juvenis e espaços comunitários.

A autora destaca que a percepção de ser mulher em 2025/26 costuma começar com a ideia de como os meninos falam, pensam e agem. Em muitas falas, o padrão é sintetizado pela expressão “os meninos dizem que…”.

As adolescentes costumam associar o próprio comportamento ao medo de ser vistas como intensas, barulhentas ou egoístas. Esse receio aparece repetidamente como fator que leva à contenção da expressão em grupos mistos.

Não fazer barulho

Entre as garotas de Carmarthen, a gerente do centro, Alison Harbor, elogiou a franqueza das conversas, mas apontou a tendência de internalizar problemas. Segundo ela, meninos costumam expressar mais seus pensamentos, enquanto meninas sistematicamente reduzem o tom.

Especialistas ouvidas pela autora associam esse fenômeno a padrões educativos: o comportamento de meninos é considerado normal, já o das meninas é visto como problemático. Estudos citados apontam maiores pressões para as mulheres na sala de aula.

A psicóloga educativa Ola Demkowicz, do Instituto de Educação de Manchester, explicou que as jovens percebem que a vida em sala de aula demanda maior contenção de expressão para mulheres, com consequências para a saúde mental.

Relatos sobre assédio e violência sexual estiveram presentes em relatos de diversas meninas. Pesquisas citadas indicam que uma grande parte das jovens ajusta o comportamento para evitar situações desconfortáveis na rua ou online.

A pesquisadora Hannah Yelin, da Universidade Oxford Brookes, afirma que as meninas reconhecem o escrutínio sexual e a relação entre posicionamento público e segurança. Elas destacam a influência de conteúdos online e de figuras públicas.

O ambiente escolar

A maior parte das entrevistas ocorreu em escolas, com dados sobre misoginia em ascensão. Profissionais de educação discutem sinais de desrespeito e abandono escolar entre as alunas.

Um sindicato de docentes indicou preocupação com crise de masculinidade em algumas escolas britânicas. Houve relatos de abusos misóginos por parte de alunos, citando um aumento no comportamento ofensivo.

As meninas também relatam que colegas homens podem menosprezá-las com comentários desonrosos, o que reforça o medo de falar em sala. Elas observam a relação entre o que veem na internet e o comportamento fora dela.

A pesquisadora Yelin aponta que a misoginia é complexa e presente no cotidiano, com impactos na autoestima e na participação em atividades escolares. Elas defendem maior organização entre elas para enfrentar a situação.

Em Ro​​chdale, houve menção a clubes de meninas que tratam de desigualdade de gênero, violência doméstica e saúde do corpo, como espaços de expressão e apoio. Em Birmingham, surgiram preocupações sobre o silêncio em sala de aula.

O absenteísmo entre meninas também foi citado. Dados de 2017/18 mostram 6% de ausências graves; em 2024/25, esse índice subiu para 13%, com maior impacto entre grupos de alunos que recebem merenda pública.

Outras falas destacaram responsabilidades de cuidado, com meninas jovens ausentando-se para cuidar de irmãos. Em alguns casos, relatos apontaram queda de desempenho em provas de inglês e matemática.

Progresso interrompido

Mesmo diante dos desafios, as meninas demonstraram aspirações diversas, incluindo áreas como ciências, artes, esportes e atuação. Elas destacaram avanços históricos das mulheres, como direitos ao voto e à independência.

A percepção é de que o progresso em direitos está sujeito a mudanças de contexto social e tecnológico. Conteúdos online, influências externas e debates políticos são citados como fatores que podem frear avanços.

As entrevistadas apontaram que conteúdos comerciais e padrões de beleza promovidos pela internet impactam suas escolhas e autoconfiança. Ainda assim, reconhecem oportunidades que não eram disponíveis para gerações anteriores.

Os depoimentos ressaltam que clubes presenciais, como netball e dança, exercem papel importante como espaços de expressão livre, em contraste com ambientes digitais onde as jovens muitas vezes se sentem pressionadas.

As pesquisadoras destacam que grande parte do tempo livre dos jovens hoje está voltada a telas, especialmente entre adolescentes, o que levanta questões sobre a manutenção de espaços reais de convivência fora da internet.

Espaços para substituir as redes sociais

Diante desse contexto, surgem perguntas sobre alternativas à vida online para as adolescentes. As meninas expressaram interesse em espaços reais de convivência onde possam ocupar o espaço, expressar-se livremente e construir amizades duradouras.

Entre as propostas, destacam clubes de meninas, atividades esportivas e atividades culturais presenciais que promovam diálogo, combate à misoginia e apoio à saúde mental. A ideia é fortalecer redes de apoio fora das redes sociais.

A reportagem cita que mais de 70% dos jovens passam grande parte do tempo livre online, e que quase metade permanece em seus quartos. O texto aponta para a necessidade de refletir sobre ambientes físicos que substituam ou complementem o consumo digital.

A autora encerra perguntando como equilibrar o uso das redes com espaços reais de socialização, e sugere que políticas educativas deem maior importância a clubes e atividades presenciais como espaços de pertencimento e proteção para as adolescentes.

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