- Professoras relatam machismo em sala de aula ligado a ideologias masculinistas, com o termo “red pill” surgindo em conteúdos de redes sociais.
- Diana Leite, professora no Texas, descreve episódios em que alunos defendiam a lower salário entre homens e mulheres por escolhas próprias e usavam de resistência a orientações da docente.
- Lara, professora em São Paulo, aponta desrespeito recorrente a mulheres em sala, com olhares e ironias; alunos associam comportamentos a conteúdos da “red pill” e o colégio não tomou providências.
- Discursos aparecem com frequência no TikTok, segundo as docentes, incluindo termos para classificar homens, além de casos de mensagens pornográficas entre alunos.
- Especialistas explicam o fenômeno: Priscila Sanches vê reação conservadora à transformação social; Gabriela Bacelar vê a “red pill” como atualização tecnológica de valores patriarcais, com hierarquias de gênero e deslegitimação de professoras.
Duas professoras brasileiras relatam episódios de machismo em sala de aula que correspondem a um comportamento estruturado por redes de discurso masculinista. As situações abrangem docentes nos Estados Unidos e no Brasil, com relatos sobre intimidação, descredibilização e resistência a orientações pedagógicas.
Na Universidade do Texas, em Austin, a professora Diana Leite descreve um aluno que defendia a ideia de que a diferença salarial é resultado apenas das escolhas profissionais das mulheres. O estudante insistia no tema, desconsiderando fontes acadêmicas, gerando desconforto entre outros alunos e levando a professora a impor limites sem expulsá-lo do debate.
Em outra aula de literatura, um aluno reagiu de forma agressiva a uma avaliação. O episódio durou mais de duas horas, com o aluno repetindo padrões de intimidação e elevando o tom de voz. A situação só cessou com a intervenção de uma colega e sem alteração na nota da docente.
Diana Leite aponta que o grupo de alunos parecia reagir de modo programático a conteúdos que incentivavam a desqualificar a professora. A ideologia, segundo ela, se manifestava de forma persistente, não apenas em ocorrências isoladas, mas no conjunto de atitudes de sala.
No Brasil, a professora Lara, de São Paulo, relata desrespeito frequente dirigido a docentes mulheres. Em turmas descritas como muito apáticas, o padrão de ataques inclui olhares, risadinhas e ironias, diferindo do tratamento dado a professores homens, que cultivam relações de amizade. O consumo de conteúdos ligad os à red pill, especialmente no TikTok, é citado como fonte de linguagem e atitudes machistas.
Relatos apontam termos categorizados pela cultura red pill, como alfa, sigma e beta, usados para classificar homens conforme status e comportamento. Grupos dentro da escola chegaram a compartilhar mensagens de cunho sexual e classificações de meninas. A cooperação entre escola e docentes não resultou em medidas significativas para Lara.
A pesquisadora Priscila Sanches afirma que o crescimento do discurso red pill entre jovens reflete uma resposta conservadora às mudanças promovidas pela mulher nos últimos anos. Ela destaca que influenciadores da machosfera transformam vulnerabilidade emocional em ressentimento contra mulheres, promovendo um senso de controle masculino.
Gabriela Bacelar, antropóloga da USP, coloca o movimento red pill como uma atualização tecnológica de valores patriarcais. O incentivo vem de plataformas digitais, com promessas de ascensão pessoal, domínio e sabor de pertencimento, usando linguagem pseudocientífica para parecer confiável.
Para as especialistas, o assédio em sala está ligado a uma construção de hierarquias entre homens e mulheres e à criação de um inimigo comum representado pelo feminismo. Mulheres em posições de autoridade são alvo de deslegitimação e ridicularização, enquanto o papel do professor é visto como conflitante com as expectativas de gênero.
Diana Leite comenta que a experiência prática com esse tipo de ambiente levou-a a apresentar seu currículo no início dos semestres para demonstrar formação, títulos e publicações. A medida visava estabelecer um clima de respeito sem recorrer à autoridade excessiva.
Por que esses discursos atraem jovens
Priscila Sanches explica que o discurso red pill oferece sensações de poder, validação e pertencimento, preenchendo necessidades de adolescentes em processo de identidade. Ela ressalta o papel de influenciadores em transformar ressentimento em hostilidade dirigida às mulheres e em moldar uma visão de mundo baseada em controle.
Segundo a psicóloga, o comportamento contado como grupo funciona como marcador de status entre os colegas. Comentários misóginos e humilhações passam a sinalizar pertencimento, elevando o risco de bullying para quem rejeita o discurso.
Misoginia como estilo de vida
Gabriela Bacelar descreve o red pill como uma atualização de valores patriarcais, com a diferença de ser veiculado de forma mais sofisticada e comercializada. A narrativa associa masculinidade a sucesso e domínio, apresentando as mulheres como alvo de deslegitimação para manter a hierarquia de gênero.
Para a pesquisadora, essa formatação depende da construção de uma hierarquia entre homens e mulheres e da identificação de um inimigo comum representado pelo feminismo. A ameaça é justificada pela narrativa de que mulheres possuem um valor comercial e poder político, desconsiderando a autoridade de docentes mulheres.
*O nome de uma das entrevistadas foi mantido apenas com autorização.*
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