- Estudo sobre manumissões no estado da Bahia, no Brasil, analisa a vida de pessoas escravizadas durante o século XIX, usando documentos de cartório em arquivos estaduais.
- Projeto de digitalização, iniciado em 2015 com apoio do Endangered Archives Programme da British Library, resultou na digitalização de mais de 300 mil papéis e preservação do acervo.
- O banco de dados já reúne cerca de 22.860 registros de manumissão (1800–1860), com objetivo de cobrir mais de duas séculos de documentos até 1888, incluindo registros de 1664.
- A pesquisa revela grande variedade de condições de liberdade, incluindo “manumissões condicionais” e vínculos contínuos de servidão, ausência de valores pagos e casos de liberdade que não anulam controles de antigos donos.
- Também aparecem casos em que mulheres escravizadas foram proprietárias de outros, além de ligações familiares entre senhores e escravizados, mostrando frisões entre escravidão e emancipação.
Um projeto de digitalização de manumissões na Bahia revela a complexidade da escravidão e da emancipação no Brasil do século XIX. O estudo utiliza volumes de notas antigas no arquivo estadual, antes pouco explorados por fragilidade física.
A iniciativa é liderada pela pesquisadora Kristin Mann, dos EUA, em parceria com Urano de Cerqueira Andrade, da UFBA e do APEB, em Salvador. O trabalho começou há mais de uma década, originando um banco de dados com registros de manumissão.
O projeto de dois anos foi apoiado pelo Endangered Archives Programme, da British Library, sob coordenação de Andrade e do professor João José Reis, iniciando em 2015. Mais de 300 mil originais foram digitalizados para reduzir a manipulação física dos volumes.
Até agora, o catálogo reúne cerca de 22.860 registros, cobrindo 1800 a 1860. A meta é ampliar para mais de dois séculos, até 1888, incluindo documentos datados de 1664, os mais antigos preservados pelo APEB.
O que dizem os registros
Em muitos papéis, a ocupação dos libertos aparece como vendedeira de rua, doméstica ou atividades similares, com menos de 2% descrevendo ocupações com precisão. Em mais de 60% não há valores de manumissão, sugerindo possíveis presentes.
Entre as notas, predominam libertações condicionais, com obrigações a cumprir ou trabalho contínuo até a morte do antigo proprietário. Condições inusuais incluem continuar a servir em determinadas situações ou ser punida mesmo após a libertação.
Segundo Andrade, a fronteira entre liberdade e escravidão era tênue. Mesmo livres, os documentos revelam controle continuado, vínculos de servidão e o direito de revogar a liberdade por desobediência.
Algumas cartas indicam laços familiares entre senhores e libertos, com expressões como irmã do mestre ou filha do pai, libertada por ela mesma. Existem casos de libertados que voltaram a morar com antigos donos.
Registros e impactos
Pesquisas mostram como famílias separadas na chegada à Bahia às vezes se reuniam no Brasil. Relatos de africanos mostram que familiares eram capturados juntos, mas raramente vendidos em conjunto.
Alguns proprietários listados nos papéis já tinham sido escravizados. Mulheres escravizadas aparecem como libertadoras em mais de 300 casos, revelando dinâmicas de poder ainda marcadas pela época.
As designações raciais variam, com Criolo/Criolinha predominantes entre os nascidos no Brasil; Africano ou Preto entre os nascidos na África. Essas distinções influem na percepção de direitos após a libertação.
Entre na conversa da comunidade