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Guimarães Rosa quase morreu ao sair para comprar cigarro

Guimarães Rosa escapou da morte duas vezes: ao sair para comprar cigarro e o prédio desabar em Hamburgo, e ao sofrer infarto aos cinquenta anos

Aracy de Carvalho e Guimarães Rosa em Paris, em 1949
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  • Em 1941, Guimarães Rosa saiu de casa para comprar cigarro, foi ao abrigo e, ao retornar, encontrou o prédio onde morava destruído pelas explosões.
  • No mesmo dia, o consulado brasileiro em Hamburgo foi atingido; Rosa entrou no imóvel e retirou documentos confidenciais do cofre, antes que o prédio desabasse.
  • O escritor repetiu que foi salvo pela vida duas vezes, incluindo um infarto aos cinquenta anos em 1958.
  • A biografia João Guimarães Rosa – Biografia, de Leonêncio Nossa, traz esse conjunto de relatos; em 2007, Alaor Barbosa publicou Sinfonia de Minas Gerais – A Vida e a Literatura de Guimarães Rosa, recolhida pela Justiça no ano seguinte.
  • Outras informações mostram a vida do autor como diplomata, seus relacionamentos e a paixão pelo sertão mineiro, tema central de Grande Sertão: Veredas.

Numa madrugada de 1941, Guimarães Rosa acordou disposto a fumar e saiu de casa em Hamburgo para comprar cigarro. Vestiu um sobretudo por sobre o pijama e, ao passar por um café, ouviu uma sirene e buscou abrigo. Pela manhã, ao retornar, encontrou o prédio da residência reduzido a escombros.

O episódio ganhou mais peso ao longo do dia: o consulado brasileiro na cidade havia sido parcialmente destruído por ataque aéreo, e autoridades alemãs blindaram a área. Rosa, no entanto, conseguiu contornar a proibição, entrou no imóvel e retirou documentos confidenciais do cofre. O desabamento seguinte fez parte do que ficou da construção.

Em entrevista registrada por Vilma, filha pioneira de Rosa, o escritor comentou que o cigarro pode ter salvado sua vida. Existem relatos de que o próprio Rosa repetiu que duas situações quase o tiraram do mundo. O segundo episódio teria ocorrido em 1958, quando ele sofreu um infarto aos 50 anos.

João Guimarães Rosa, nascido em 1908, teve a carreira marcada por várias fases. Entre 1938 e 1942 atuou como diplomata em Hamburgo, Bogotá e Paris, onde também manteve vínculos com Aracy de Carvalho, que ajudou judeus a escapar do nazismo. O período inspira boa parte de seus saberes sobre o tema do demoníaco e do destino, presentes em Grande Sertão: Veredas.

O conjunto de obras do autor ganhou nova leitura em biografias recentes. Leonêncio Nossa lançou a biografia João Guimarães Rosa – Biografia, em três materiais, tratando do médico, do diplomata rebelde e do soldado. A obra também revisita a expectativa de Rosa em ingressar na Academia Brasileira de Letras, marcada por superstições e por uma relação intensa com o sofrimento.

Ao longo da vida, Rosa manteve uma relação próxima com o sertão mineiro, inclusive em expedições que resultaram em anotações para a futura obra-prima. Em 1952, realizou uma viagem de nove dias a cavalo pelo Sertão de Minas, registrando detalhes que, segundo estudiosos, contribuíram para a construção de Riobaldo. A leitura coletiva da obra é mantida até hoje em encontros promovidos pela USP.

Entre os aspectos mais estudados está a relação de Rosa com o imaginário do diabo. O biógrafo destaca o interesse do escritor pelo tema, que aparece tanto na ficção quanto na vida. Autores e pesquisadores ressaltam a maneira como Rosa dialogava com a fé, o destino e a escrita, revelando um perfil que ultrapassa a figura do diplomata e do novelista.

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