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Waldirene, 1ª mulher trans a fazer cirurgia de mudança de sexo no Brasil, morta

Morre Waldirene Nogueira, primeira mulher trans a realizar cirurgia de redesignação sexual no Brasil (1971), símbolo pioneiro diante de perseguição e preconceito

Waldirene no Carnaval, na década de 1970; ela passou toda a infância dormindo em um quarto separado dos irmãos e irmãs
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  • Waldirene Nogueira, 80 anos, morreu na terça-feira, 19 de maio; foi a primeira mulher trans a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, em dezembro de 1971, aos 26 anos.
  • A cirurgia ocorreu no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, sob supervisão do cirurgião Roberto Farina, após avaliação preliminar de duas anos no Hospital das Clínicas.
  • Em 1976, o Ministério Público denunciou Farina por lesão corporal; Waldirene foi vítima à revelia e o IML reconheceu que ela era mulher. Farina foi condenado em 1978, mas a sentença foi anulada em segunda instância em 1979.
  • A Justiça manteve Waldirene com o nome de nascimento nos documentos por décadas, o que a impediu de exercer, por exemplo, a carreira de contadora; a alteração do registro ocorreu apenas em 2010-2011, após sua luta judicial.
  • Em 1º de março deste ano, o Supremo Tribunal Federal liberou a mudança de nome e sexo diretamente em cartório, sem necessidade de autorização judicial, laudos médicos ou cirurgia.

Waldirene Nogueira, reconhecida como a primeira mulher trans a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil, faleceu aos 80 anos na terça-feira, 19 de maio. A notícia foi confirmada por familiares e repercutiu com acervo histórico sobre o tema.

Nascida em 1945 no interior de São Paulo, Waldirene atravessou décadas de resistência e preconceito. Em 1971, aos 26 anos, realizou a cirurgia no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo, sob os cuidados do cirurgião Roberto Farina, marco de referência no país. A operação ocorreu após longo acompanhamento médico e terapêutico.

O caso na prática médica e o que mudou

O procedimento de Waldirene foi alvo de debate jurídico: o Ministério Público abriu processo por lesão corporal contra Farina, enquanto a paciente enfrentou a demanda de mudança de documentos. O laudo do Instituto Médico Legal indicou que Waldirene era mulher, contribuindo para a polêmica institucional vigente à época.

Em 1978, Farina foi condenado em primeira instância a dois anos de reclusão por lesão grave, mas a sentença foi reformada em segunda instância. A erosão de direitos enfrentada por Waldirene incluiu manter o registro civil com o nome de nascimento masculino, o que atrasou alterações permanentes até 2010-2011.

Caminho da mudança de documentos e legado

A certidão de nascimento de Waldirene só foi alterada aos 65 anos, em 2010, com o RG seguindo em 2011. O caso ajudou a pavimentar mudanças legais mais abrangentes, chegando ao STF em 2023 com possibilidade de mudança de nome e sexo diretamente em cartório, sem autorização judicial.

Waldirene manteve a ocupação de manicure ao longo da vida, complementando a aposentadoria. Ela enfrentou solidão e preconceitos, mas também encontrou momentos de expressão, como no Carnaval, quando se sentia mais à vontade para sair em público.

Contexto histórico e debates médicos

A atuação de Farina consolidou um marco clínico, ainda que cercado de controvérsias legais e sociais. O episódio acelerou debates sobre atendimento a pessoas trans no Brasil, influenciando práticas futuras e o reconhecimento de direitos na medicina pública e privada.

Ao longo da década de 1980, emergiram avanços que ampliaram o acesso a cirurgias de afirmação de gênero, com o CFM autorizando procedimentos em 1997 e o SUS incorporando-os a partir de 2008. Esses passos ajudaram a consolidar o tratamento como parte da assistência à saúde.

Vida pública e memória

Nos últimos anos de vida, Waldirene permaneceu dedicada à manicure, mantendo vínculos com a comunidade local. Sua trajetória é lembrada como pioneira e simbólica para o movimento trans no Brasil, conectando memória pessoal a transformações legais e médicas.

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