- Miquelina Constância das Chagas foi pintora e douradora, atuando entre 1820 e 1840 em São Paulo, com trabalho em igrejas da cidade.
- Liderou uma equipe de artesãos homens e ficou responsável por douração e pintura em altares, sacristias e ornamentação de igrejas.
- Destacou-se pela douração de três altares na igreja da Ordem Terceira de São Francisco e pela ornamentação da igreja da Nossa Senhora da Boa Morte.
- Pesquisa da historiadora Danielle Manoel dos Santos Pereira, da Universidade Federal de São Paulo, revela dados do censo de 1836: Miquelina era parda, casada, tinha 37 anos, morava no distrito norte da Sé e tinha uma filha de cinco anos chamada Maria.
- O estudo aponta que mulheres também atuavam na arte sacra no início do século XIX, desvendando a importância de Miquelina e descontruindo a ideia de que apenas homens exerciam essa prática.
Miquelina Constância das Chagas, pintora e douradora, atuou entre 1820 e 1840 em São Paulo, trabalhando principalmente em igrejas da cidade. Parda, alfabetizada e mãe, comandou uma equipe de artesãos e desempenhou papel relevante na ornamentação sacra.
Pouca documentação sobrevive sobre a artista, cuja vida parece ter sido apagada pela história até recentemente. Pesquisas indicam que Miquelina levou a cabo pintura e douração em madeira, executando serviços para ordens religiosas e confrarias. Seu registro mais extenso ficou ligado à igreja de São Francisco, onde atuou por cerca de quinze anos.
Contexto e obras
A atuação de Miquelina inclui a douração de três altares na igreja da Ordem Terceira de São Francisco e a ornamentação da sacristia da Ordem Terceira do Carmo, além da decoração da igreja Nossa Senhora da Boa Morte. Entre 1826 e 1848, ela consolidou-se como mestre da pintura sacra na capital paulista.
Pesquisa da historiadora Danielle Manoel dos Santos Pereira (Unifesp), baseada em recibos de prestação de serviços e no censo de 1836, oferece um retrato mais preciso. Nessa documentação, a artista declara casar, se identifica como parda, tem 37 anos e uma filha de cinco, Maria. Revela também moradia no distrito norte da Sé.
Os recibos demonstram a qualidade da escrita de Miquelina e citam, entre seus oficiais, nomes como Massimo, Francisco e Domingos. O trabalho com a irmandade da Boa Morte, iniciado em 1830, e a conclusão de projetos na igreja do Carmo sinalizam a complexa gestão de obras da artista.
Relevância histórica
A figura de Miquelina é marcada pela raridade de uma mulher que, além de pintora, dirigia uma equipe de artesãos em pleno século XIX. A menção de Mário de Andrade, que a identificou, contrasta com o silenciamento anterior da historiografia sobre artistas mulheres. Pesquisas contemporâneas revelam o alcance e o alto nível de sua arte.
Além de Miquelina, há registro de outra mulher ligada à pintura sacra paulista do período, Anna da Conceição, religiosa do Mosteiro da Luz. A presença feminina no meio artístico da época, embora subaproveitada, mostra que o protagonismo feminino era mais presente do que a tradição reconhece.
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