- Aplicativos de monitoramento do ciclo menstrual, como Flo Health e Stardust, usam informações fornecidas pelas usuárias para oferecer estimativas do ciclo, incluindo período fértil e TPM.
- Usuárias afirmam receber anúncios direcionados durante o ciclo, com promoções de remédios para cólicas, absorventes e coletores, entre outros.
- Pesquisadora brasileira comenta que algoritmos monitoram dados íntimos e podem criar perfis detalhados a partir de hábitos nas redes, além de dificultar transparência sobre como os anúncios são segmentados.
- Em relação à regulamentação, o estudo aponta resistência das big techs a propostas para tornar mais claro o uso de dados em publicidade, citando o risco de impactos no consumo.
- Em casos recentes, o Flo Health foi obrigado a divulgar sua política de dados publicitários após uma condenação nos Estados Unidos; a Stardust afirmou não vender dados de usuários, enquanto o Flo Health não comentou. Representantes da Meta e do TikTok apenas encaminharam às políticas de privacidade.
A estudante Alice Pinho Monteiro, 24, descobriu que estava grávida apenas ao ver vídeos de bebês e sugestões de nomes após completar três meses de gestação. Luanna Beatriz Santana, 21, notou anúncios de remédios para cólicas, absorventes e coletores exibidos no Instagram durante o período menstrual. As duas utilizam os apps Flo Health e Stardust para acompanhar o ciclo.
Pesquisas apontam que plataformas monitoram dados íntimos para estimar fases do ciclo, como fertilidade e TPM. Algoritmos associam informações de hábitos sexuais e rotina para entregar conteúdos e anúncios. Estudiosas da Universidade Aberta da Catalunha destacam o uso de dados sensíveis nesse processo.
No Stardust, Luanna registra intensidade da dor e variações de apetite; o app sugere rotinas durante o ciclo. Notificações frequentes como sugestões de lanches aparecem diariamente, segundo relatos de usuárias. Analistas ressaltam que esse tipo de conteúdo atua como validação de comportamentos no período.
A reportagem apura ainda o cenário regulatório. No Brasil, propostas de regulação de publicidade e transparência de dados enfrentaram resistência de grandes players, inclusive durante a tramitação do projeto de lei das fake news, arquivado em 2024. A eventual aprovação poderia exigir histórica de anúncios e critérios usados.
Para entender a prática, especialistas destacam que saber como os dados são coletados não explica o impacto completo sobre hábitos de consumo. Perfis detalhados podem ser formados a partir de atitudes observadas nas redes, mesmo sem classificações explícitas de dados sensíveis.
Caso nos EUA serve de referência: após sanção da FTC, o Flo foi obrigado a divulgar política de dados publicitários separada dos termos de privacidade e pediu a remoção de registros por fornecedores. Em contrapartida, plataformas brasileiras limitaram-se a apontar políticas de privacidade públicas.
A combinação de IA com publicidade direcionada amplia o alcance para nichos específicos, indo além de dados básicos como gênero. Com o tempo, plataformas conseguem interpretar comportamento com métricas como tempo de retenção de conteúdos e atenção a determinados temas.
Procuradas, as representantes da Meta e do TikTok no Brasil encaminharam apenas links para políticas de privacidade. O Stardust informou uso de sistemas distintos para dados pessoais e de saúde, além de negar venda de informações. O Flo Health não respondeu até o fechamento.
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