- A apreensão de 534 celulares em presídios de 23 estados ocorreu na 11ª fase da Operação Mute, destacando o uso de celulares para coordenar crimes de dentro das cadeias.
- Facções atuam como centros de comando dentro do sistema prisional, com lideranças no topo, gerentes regionais e chefes de alas que transmitem ordens e supervisionam ações.
- O funcionamento segue uma rede de prestação de contas, que replica punições e decisões internas entre estados, mesmo diante de prisões de integrantes.
- Além de celulares, bilhetes manuscritos e o uso de drones são usados para enviar celulares, chips e drogas, além de monitorar perímetros e comunicação.
- As ordens de dentro das cadeias abrangem tráfico de drogas e armas, estelionatos, golpes virtuais e os chamados “tribunais do crime” que julgam membros, com punições que vão desde multas até expulsões ou execuções.
A operação Mute encerrou a sua 11ª fase com a apreensão de 534 celulares em presídios de 23 estados na última semana. A descoberta ocorre em meio a medidas que tentam romper a comunicação entre organizações criminosas e o interior das cadeias. A decisão dos EUA de classificar facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras também ganhou espaço no debate sobre segurança pública.
Especialistas destacam que o desafio vai além da presença de aparelhos. Ao longo de décadas, as prisões brasileiras passaram a funcionar como centros de comando de crimes organizados, com lideranças que mantêm o controle mesmo longe das ruas. O objetivo é entender como as estruturas internas se mantêm ativas.
Para o delegado André Santos Pereira, o presídio oferece duas condições chave para o líder: tempo ocioso e concentração de mão de obra. Sem isolamento eficaz da comunicação, as organizações conseguem organizar ações com maior alcance, mantendo operações em várias frentes.
Estruturas de comando dentro das prisões
A rede interna de facções dentro dos estabelecimentos lembra uma empresa. No topo estão as lideranças que definem diretrizes estratégicas, seguidas por gerentes regionais e chefes de alas responsáveis por repassar ordens. A transmissão ocorre por meio de uma rede de prestação de contas que funciona entre o que é feito na rua e o que acontece atrás das grades.
A dinâmica evita rupturas quando um elo é preso. Executantes atuam de forma descentralizada, o que facilita a continuidade de operações simultâneas em diferentes estados e até fora do país. A prisão funciona como hub de transmissão, blindando o líder das ações diretas da polícia.
Para sustentar o controle, as facções criaram cadastros próprios com informações de cada integrante, independentemente do estado. Punições, promoções e determinações são replicadas rapidamente pelo conjunto operacional, mantendo a coesão entre áreas distintas.
Celulares, bilhetes e drones
Apesar de bloqueadores de sinal, scanners e revistas eletrônicas, os celulares continuam como ferramenta central. Com acesso à internet e serviços digitais, líderes presos coordenam ações em tempo real, movem recursos e acompanham operações a distância.
Além de informar ordens, os aparelhos ajudam a monitorar o dinheiro de atividades criminosas. A apreensão de dispositivos gera impactos imediatos, mas tende a ser temporária sem medidas permanentes de controle.
Outros meios de comunicação ainda são usados. Bilhetes manuscritos, muitas vezes codificados, circulam entre visitantes e intermediários. Drones aparecem como recurso para envio de celulares, chips e drogas, além de monitorar perímetros, demonstrando capacidade de adaptação das organizações frente às medidas de controle.
Ordens de dentro da cadeia
As ordens de origem prisional abrangem o tráfico de drogas e armas, com logística de distribuição, cobrança de dívidas e definição de territórios. Crimes patrimoniais complexos também ganham coordenação a partir das cadeias, incluindo golpes e extorsões via telefone e redes sociais.
Dispositivos internos também orientam os chamados tribunais do crime, estruturas paralelas que julgam membros por descumprimento de regras. Punições variam entre multas, expulsões e, em alguns casos, medidas extremas, mantendo o vínculo com a facção sob o prisma da proteção interna.
Espaço de recrutamento
Além de centros de comando, o sistema prisional funciona como espaço de fortalecimento e expansão de organizações criminosas. O ingresso de presos provisórios ou condenados por crimes de menor potencial tende a buscar proteção dentro das facções, especialmente em contextos de superlotação e dificuldade de classificação por grau de periculosidade.
A entrada na facção pode ocorrer após a captura, com a promessa de proteção para a família e asseguramento de condições de sobrevivência próprias e de familiares fora da prisão.
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