- Bets associadas à Copa do Mundo podem aumentar o risco de dependência, principalmente entre grupos vulneráveis.
- Nos primeiros cinco meses de 2026, mais de 574 mil pessoas utilizaram a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, e 41% disseram ter buscado o serviço por perda de controle.
- Nos últimos cinco anos, a procura por serviços de saúde mental do SUS relacionados à dependência de jogos online cresceu cerca de 140%.
- A Copa de 2026 deve ampliar o engajamento com apostas online, via bet builders e campanhas publicitárias, incluindo parcerias com celebridades.
- Crianças e adolescentes estão entre os mais vulneráveis, com 10,9% dos jovens de 14 a 18 anos já tendo participado de apostas, segundo levantamento de 2025.
Para a Copa do Mundo de 2026, o tema bets volta a ganhar atenção. Plataformas de apostas esportivas se conectam ao torneio, ampliando o leque de opções para os fãs. Especialistas destacam que o mix Copa + apostas pode elevar comportamentos compulsivos, atingindo principalmente grupos mais vulneráveis.
A relação entre eventos esportivos de grande alcance e o aumento de apostas já é observada por pesquisadores. Ahmed El Khatib, da Unifesp, aponta que não é apenas o volume, mas a aceleração de comportamentos problemáticos em pessoas com predisposição.
Dados recentes ajudam a entender o cenário. Em 2026, 574 mil pessoas buscaram autoexclusão de casas de apostas vinculadas ao CPF, segundo a Plataforma Centralizada do Ministério da Fazenda. Diante disso, 41% disseram que a motivação foi perda de controle e impactos na vida pessoal.
Entre os últimos cinco anos, a demanda por serviços do SUS relacionados à dependência de jogos online cresceu aproximadamente 140%. O quadro indica impacto não apenas financeiro, mas também emocional para usuários e familiares.
Por que a Copa incentiva apostas
A Copa transforma o futebol em um fenômeno social, envolve público que não acompanha regularmente e intensifica discussões sobre resultados. Para Khatib, o ambiente é propício às plataformas de apostas, que veem crescimento durante o torneio.
Levantamento do Barclays mostra que a Copa do Catar, em 2022, movimentou cerca de US$ 35 bilhões em apostas globais, cerca de R$ 187 bilhões, com alta de 65% sobre 2018. A projeção para 2026 indica avanço para mais de R$ 255,7 bilhões.
Outra prática comum são os *bet builders*, apostas que combinam várias previsões em um único lance. Gols, passes, escanteios e até o pé de finalização entram na construção da aposta. O aumento de variáveis pode elevar a sensação de controle, embora as probabilidades costumem cair.
Publicidade intensa é parte do cenário. Campanhas associam copa a prêmios elevados, com anúncios em redes, outdoors e transporte público. A participação de celebridades, como Neymar, também amplia a visibilidade das apostas entre fãs.
Impacto na saúde mental
Especialistas destacam que o contexto fomenta endividamento e dependência. A psicóloga Juliana Bizeto compara o funcionamento das bets aos mecanismos de prazer e recompensa no cérebro, associando expectativa ao estímulo de dopamina.
O risco é maior para jovens. Crianças e adolescentes podem ter exposição à publicidade de bets antes de atingirem a idade legal para apostar. Dados de 2025 indicam que 53% desse público já tinha visto publicidade relacionada a bets entre março e setembro daquele ano.
Efeitos adversos incluem crises de ansiedade, distúrbios do sono e, em casos extremos, endividamento com angústia familiar. Pesquisas apontam que jovens recorrem a agiotas para quitar dívidas relacionadas a apostas, com consequências graves.
Regulamentação e limites
A Copa de 2026 ocorre sob regras do mercado de apostas regulamentado no Brasil, o que deve ampliar fiscalização e proteção ao consumidor. Especialistas ressaltam, porém, que regulamentação não elimina riscos comportamentais, emocionais e financeiros.
Além disso, a interdependência entre esporte e mercado de apostas permanece como desafio. O aumento da exposição ao universo esportivo pode sustentar o apelo comercial das apostas, principal motor de engajamento.
Alguns especialistas sugerem resgatar tradições simples da experiência da Copa, como bolões informais entre colegas. A ideia é manter a celebração coletiva, sem facilitar modelos de negócio que favoreçam apenas as plataformas e patrocinadores.
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Fontes consultadas: especialistas em finanças comportamentais e saúde mental, dados da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, SUS e pesquisas sobre publicidade de bets.
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