- ONG britânica Earthsight denuncia que madeira derivada de uma concessão na Amazônia chegou ao mercado europeu, com destino a obras na Holanda, via importadoras que comercializam produtos certificados.
- A madeira, do angelim-vermelho, foi fornecida pela Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda. e percorreu a cadeia de suprimento mesmo após suspensões operacionais e multas.
- Entre as empresas importadoras na Europa que teriam recebido o material estão Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep.
- O governo brasileiro extinguiu o contrato com a Samise, decisão publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, com possibilidade de recurso em dez dias.
- O relatório aponta falhas na certificação FSC e na aplicação do Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR), defendendo diligência mais robusta para impedir desmatamento na pauta europeia a partir de dezembro de 2026.
Um relatório da ONG britânica Earthsight, divulgado nesta segunda-feira, aponta que milhares de metros cúbicos de madeira da Amazônia chegaram à Europa. O destino final seriam obras de infraestrutura e paisagismo na Holanda. A organização diz que há fragilidades no certificado e no controle das cadeias de fornecimento.
A investigação utiliza imagens de satélite, decisões judiciais e registros de exportação ligados à Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda. A empresa atuou na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará, e já acumula multas, suspensões e uma condenação criminal, segundo o estudo.
Caminho da madeira até a Europa
Segundo o relatório, o angelim-vermelho chegou ao mercado holandês por meio de importadoras que trabalham com madeira certificada para infraestrutura e paisagismo. Entre elas estariam Hoogendoorn Hout e Van den Berg Houtgroep.
A Earthsight afirma que a madeira percorreu a cadeia completa, alcançando o mercado europeu mesmo após suspensões e investigações. Rafael Pieroni, líder da organização para a América Latina, aponta falhas nos mecanismos de certificação e na fiscalização.
Entre os episódios citados, há suspeita de adulteração de mais de 600 toras avaliadas em cerca de 550 mil reais, além de suspensão de operações por indícios de fraude, transporte durante suspensão e envio para a serraria Greenex.
Dados do estudo mostram multas totais próximas de 7 milhões de reais por violações legais, além de dívidas de mais de 2,2 milhões ao governo federal por taxas de concessão não pagas, o que provocou nova suspensão em março de 2025.
Certificação sob escrutínio
O relatório aponta que a Samise possuía certificação FSC desde 2016 e sofreu suspensões entre 2023 e 2025, com o cancelamento do certificado ocorrido em março de 2026. O Ministério do Meio Ambiente extinguiu o contrato com a Samise, conforme publicação no Diário Oficial nesta segunda.
A Samise pode contestar a decisão em um prazo de 10 dias. A reportagem tentou contato com a empresa sem sucesso até o fechamento.
A Earthsight sustenta que a certificação FSC permaneceu válida durante parte do período de sanções, destacando fragilidades do sistema de certificação e da aplicação do Regulamento da UE sobre Madeira (EUTR).
A ONG defende que depender apenas de certificações não é suficiente e reforça a necessidade de diligência mais robusta. A entrada em vigor da nova regulação antidesmatamento da UE está prevista para dezembro de 2026.
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