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Líderes indígenas mortos enquanto pistas de narco cortam territórios na Amazônia

Sessenta e sete pistas de narco em áreas indígenas do Peru evidenciam rotas de tráfico; violência contra líderes indígenas aumenta em Ucayali, Huánuco e Pasco

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  • Mongabay e Earth Genome detectaram 67 pistas de pouso clandestinas usadas para tráfico de drogas nas regiões de Ucayali, Huánuco e Pasco, no Peru.
  • Destas, 31 concentram-se em Atalaya, região considerada um dos principais focos de violência na Amazônia, com muitas pistas dentro ou ao redor de comunidades indígenas e reservas.
  • A análise, que combina IA e imagens de satélite com fontes oficiais, confirma uso das pistas para tráfico e aponta aumento da violência contra lideranças indígenas desde 2020 (11 mortes segundo o CNDDHH, 15 segundo a AIDESEP).
  • Nas três regiões, coca plantation totaliza 18.742 hectares, com crescimento significativo desde 2020; Ucayali lidera esse aumento, com expansão na Huánuco e Pasco.
  • Especialistas destacam que o crime é multifacetado, com redes fragmentadas e terceirização de operações; o deslocamento de atividades do VRAEM para Atalaya e áreas vizinhas intensifica a pressão sobre comunidades isoladas.

O levantamento conjunto de Mongabay e Earth Genome identificou 67 pistas clandestinas usadas para o transporte de drogas nas regiões peruanas de Ucayali, Huánuco e Pasco. A análise combinou IA, imagens de satélite, dados oficiais e observações de campo para confirmar que cada pista está associada a atividades de narcotráfico.

No total, 31 pistas estão concentradas em Atalaya, hoje uma das zonas mais violentas da Amazônia peruana. A maior parte das pistas ilegais fica dentro ou ao redor de comunidades indígenas, em áreas de reservas ou de concessões florestais, elevando o risco para populações locais.

A investigação, que durou um ano, ouviu mais de 60 fontes jornalísticas e confirmou a existência de 76 pistas irregulares em seis regiões amazônicas: Ucayali, Huánuco, Pasco, Cusco, Madre de Dios e Loreto. Destas, 67 estão em Ucayali, Huánuco e Pasco, onde líderes indígenas foram assassinados nos últimos quatro anos.

Triângulo da morte e impacto social

Os arquivos de imagens mostram alta concentração de pistas em áreas próximas a comunidades indígenas, com 30 pistas dentro de territórios indígenas e 26 nas áreas que as cercam. Sete territórios foram invadidos por pistas, com impactos diretos na segurança e nos modos de vida locais.

A coca culturalmente ligada ao narcotráfico ocupa áreas de 18.742 hectares nas três regiões, segundo dados de DEVIDA. Em Ucayali, a área de coca quase triplicou desde 2020, e em Huánuco houve crescimento significativo. Este pano de fundo facilita a atuação de redes criminosas que operam com logística complexa.

O levantamento aponta que a construção de pistas ocorre também fora de áreas protegidas, em concessões florestais, onde há interseção entre madeiras, coca e infraestrutura de narcotráfico. Em alguns casos, cinco pistas surgiram entre 2020 e 2021, período de pandemia.

Operações e hierarquia do crime

Especialistas destacam que as redes criminosas tendem a se segmentar, com intermediários que coordenam o transporte entre pontos, reduzindo a exposição de organizações maiores. A presença de grupos transnacionais, como facções brasileiras, tem contribuído para a fragmentação da cadeia.

O uso de pistas na fronteira com a Bolívia facilita o deslocamento de cargas para mercados do norte do país vizinho e, em alguns itinerários, segue para o Brasil ou para a Colômbia. Operações de fiscalização apontam destruição de aeronaves destinadas ao tráfico e, em média, o retorno rápido das atividades após o desmonte.

Resposta institucional e desafios

Dados oficiais apontam que, entre 2013 e 2022, foram destruídas 705 pistas não autorizadas nas regiões de Huánuco, Pasco e Ucayali, com aumento de intervenções entre 2019 e 2020, período de pandemia. Autoridades destacam que a repressão precisa acompanhar estratégias de prevenção e de reconstrução desarticuladas.

Líderes de comunidades e organizações indígenas reforçam a necessidade de ações sociais e civis para evitar o retorno das atividades ilícitas, apontando que apenas ações repressivas não bastam. A presença de oficinas e laboratórios de coca continua associada à exploração de territórios vulneráveis e à violência na região.

A análise do Earth Index, desenvolvida com apoio de Earth Genome e financiada pelo Pulitzer Center, utiliza IA para detectar padrões de pistas clandestinas a partir de imagens de satélite, com validação local. A ferramenta permitiu mapear cronologias de aberturas e fechamentos das pistas ao longo dos anos.

O território em risco

Indígenas e guardiões de territórios relatam dificuldades para buscar proteção efetiva frente à atuação de traficantes. Em alguns casos, comunidades próximas a reservas indígenas relatam centenas de pistas ao redor de seus territórios, o que intensifica a pressão, a violência e a sensação de vulnerabilidade entre os moradores.

A rede de tráfico também envolve ocupação de áreas de cultivo de coca, ampliação de áreas desmatadas e impactos ambientais associados, incluindo resíduos químicos usados na produção de cocaína. Observadores ressaltam que a relação entre desmatamento, tráfico e violência requer resposta integrada entre fiscalização, proteção de comunidades e desenvolvimento sustentável.

Conclusões do diagnóstico

O estudo confirma que as pistas de narco no Amazonas peruano não apenas representam uma forma de transporte, mas integraram-se a uma lógica criminal mais ampla, com consequências ambientais, sociais e de segurança pública. O quadro reforça a necessidade de ações coordenadas entre governos, organizações da sociedade civil e comunidades locais para reduzir a violência e proteger territórios indígenas.

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