- A Cargill sinalizou, em seu relatório de sustentabilidade de dezembro de 2024, reduzir o rigor do compromisso de não desmatamento na Amazônia ao adotar o corte de 2020 para desmatamento na cadeia de soja.
- O movimento acompanha a futura Regulação de Desmatamento da União Europeia (EUDR), que entrará em vigor no fim de 2025 e proibirá importações da UE de produtos de áreas desmatadas desde 2020.
- Com esse recorte, a empresa afirma que 99,3% de sua soja seria “livre de desmatamento”, frente a 94% caso fosse mantido o corte de 2008.
- Tiago Reis, da Conservação Brasil da WWF, alerta que a mudança permite a compra de soja de milhões de hectares desmatados após 2008, beneficiando grandes players do agronegócio que defendem a suspensão do moratória.
- Nos últimos meses, três estados brasileiros da Amazônia—Rondônia, Mato Grosso e Maranhão—promulgaram leis que desincentivam incentivos fiscais a empresas signatárias da moratória, enquanto a Aprosoja MT acionou o Cade para contestá-la; o STF suspendeu a lei de Mato Grosso.
Cargill sinalizou que reduzirá o compromisso de não desmatamento na Amazônia em relação à soja. A informação vem de uma investigação do Repórter Brasil. A empresa divulgou, em seu último relatório de sustentabilidade, publicado em dezembro de 2024, uma mudança na forma de medir o desmatamento em sua cadeia de soja.
A nova definição usa 2020 como ano de corte, em linha com a regulamentação europeia de desmatamento que entrará em vigor no fim de 2025. Com isso, a Cargill afirma que 99,3% de sua soja é “desflorestada”; sob o corte de 2008, esse percentual seria de 94%.
Mudança de corte e críticas
Tiago Reis, especialista em conservação da WWF-Brasil, disse ao Repórter Brasil que a empresa pode comprar soja de milhões de hectares desmatados após 2008, beneficiando grandes players que defendem o fim do acordo. O Moratório da Soja na Amazônia tem histórico de sucesso na redução do desmatamento desde 2006, quando 30% das novas propriedades estavam em áreas desmatadas, chegando a 1% em 2013.
Reação do setor e possíveis impactos
Caso outros participantes do setor acompanhem a linha da Cargill, até 2,5 milhões de hectares adicionais na Amazônia poderiam ser destinados à produção de soja. Abiove, associação das indústrias de óleo vegetal e patrocinadora da Cargill, afirmou apoiar fortemente o Moratório, mas reconheceu a mudança em face de pressões legais estaduais recém-aprovadas. Estados como Rondônia, Mato Grosso e Maranhão promulgaram leis que reduzem incentivos fiscais para empresas signatárias, com a suspensão da lei de Mato Grosso pelo STF até análise de constitucionalidade.
Controvérsia e desdobramentos regulatórios
A Aprosoja MT solicitou aos órgãos antitruste que investiguem o acordo, alegando criação de cartel de compra ao impor restrições que, segundo a entidade, vão além da lei brasileira, causando perdas estimadas de até 20 bilhões de reais por ano. A disputa envolve etapas legais, mudanças regulatórias e impactos econômicos para produtores e governos locais.
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