- O Nepal enfrenta a pior onda de protestos em décadas, iniciada após o governo bloquear 26 plataformas de redes sociais para conter “fake news”.
- A violência resultou em pelo menos 22 mortes e 200 feridos em confrontos com a polícia. Entre as vítimas está Rajyalaxmi Chitrakar, esposa do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal.
- As forças de segurança reagiram com violência, usando munição real e balas de borracha, levando à renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli e de ministros.
- Manifestantes incendiaram o Parlamento e a Suprema Corte, e o aeroporto internacional foi fechado após ataques.
- A mobilização é liderada pela Geração Z, insatisfeita com a desigualdade e a corrupção, enquanto o Exército assume o controle da segurança em meio ao vácuo de poder.
O Nepal, país do Himalaia situado entre a Índia e a China, vive a pior onda de protestos em décadas. O estopim da revolta foi a decisão do governo de bloquear 26 plataformas de redes sociais, sob o argumento de conter “fake news” e mobilizações digitais. A medida, porém, foi vista como censura e desencadeou uma contestação muito mais ampla contra a corrupção endêmica, a desigualdade econômica e o domínio de uma elite política envelhecida.
Mortes em destaque
A violência já deixou pelo menos 22 mortos em dois dias de confrontos e 200 pessoas ficaram feridas nos confrontos com a polícia. Entre as vítimas está Rajyalaxmi Chitrakar, esposa do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal, que morreu nesta terça-feira (9) após sofrer queimaduras quando sua casa foi incendiada por manifestantes. Chitrakar chegou a ser levada ao hospital em estado crítico, mas não resistiu.
Outros líderes políticos, incluindo ministros e ex-primeiros-ministros, também ficaram feridos nos ataques.
Repressão e renúncia
Na segunda-feira (8), as forças de segurança reagiram com violência às manifestações, usando munição real, balas de borracha e canhões de água para dispersar jovens nas ruas de Katmandu. O confronto terminou em massacre, com 19 mortos no primeiro dia e mais de uma centena de feridos.
A repressão acelerou a crise política: pressionado pelas ruas e pela instabilidade, o primeiro-ministro K.P. Sharma Oli anunciou sua renúncia, acompanhado por ministros-chave do governo.
Escalada da revolta
No dia seguinte, a revolta ganhou contornos ainda mais dramáticos. Manifestantes incendiaram o Parlamento, a Suprema Corte, delegacias de polícia e residências de políticos, transformando a capital em escombros.
Vídeos postados nas redes sociais mostraram os danos na casa de KP Sharma Oli em Balakot, Baktapur.
Dentro do parlamento, centenas de manifestantes dançaram e gritaram palavras de ordem. Muitos carregavam bandeiras do Nepal, e todas as janelas foram quebradas. Mensagens antigoverno foram pichadas na parte externa do edifício.
O aeroporto internacional foi fechado e a maior empresa de mídia do país saiu do ar após ataques incendiários.
A fúria da Geração Z
No centro da mobilização está a Geração Z nepalesa, frustrada com a falta de perspectivas. Enquanto herdeiros de políticos — apelidados de “nepo kids” — ostentam bolsas de grife e carros importados nas redes sociais, milhões de jovens deixam o país em busca de empregos precários no Golfo, na Coreia do Sul ou na Malásia.
Essa diáspora é vital para a economia: em 2024, as remessas de trabalhadores no exterior representaram 26% do PIB nacional. Ainda assim, a desigualdade entre a vida luxuosa da elite e a realidade da maioria alimenta o descrédito na política.
Embora não haja uma liderança centralizada, vários coletivos surgiram, fazendo convocações e compartilhando atualizações online.
![Protestos no Nepal – Imagem 1]()
Estudantes de universidades das principais cidades do Nepal, como Katmandu, Pokhara e Itahari, foram convidados a participar usando uniforme e levando seus livros.
Vídeos nas redes sociais mostram até crianças em idade escolar participando das marchas.
Corrupção crônica
![Protestos no Nepal – Imagem 2]()
Escândalos de desvio de verbas em obras públicas, além de esquemas fraudulentos como a falsificação de identidades de refugiados butaneses, ampliaram a indignação popular. Apesar de sucessivas investigações parlamentares, quase nenhum caso resultou em punição efetiva.
Para os jovens, a alternância no poder entre os mesmos três líderes — Oli, Sher Bahadur Deuba e Pushpa Kamal Dahal — tornou-se insuportável.
Os manifestantes, têm associado o bloqueio das redes sociais à restrição da liberdade de expressão e às denúncias de corrupção entre os políticos.
O papel dos “nepo babies” nos protestos do Nepal
Um dos símbolos mais fortes da revolta no Nepal são os slogans “nepo baby” e “nepo kids”, que ganharam as ruas e as redes sociais.
Os termos viralizaram após vídeos no TikTok e Instagram mostrarem o contraste entre o luxo das famílias da elite política — bolsas de grife, viagens internacionais e carros importados — e a dura realidade da juventude comum, marcada por desemprego e migração forçada.
Para os manifestantes, esses herdeiros representam o privilégio sem mérito, vivendo do dinheiro público enquanto milhões de jovens lutam para sobreviver. A expressão virou bandeira de uma frustração mais profunda: a desigualdade que separa a elite do resto do país.
O vácuo de poder
Com o Parlamento em ruínas e o governo sem liderança clara, o Exército assumiu o controle da segurança e convocou a população a devolver armas saqueadas. Ainda assim, não está claro quem governa o Nepal neste momento.
A ONU condenou a violência das forças de segurança e pediu uma investigação imediata. Enquanto isso, a crise nepalesa ecoa episódios recentes em países vizinhos, como Bangladesh e Sri Lanka, onde protestos liderados por jovens derrubaram governos acusados de corrupção e má gestão.
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