- A guerra entre Israel e Hamas completa dois anos, com a situação em Gaza devastadora para civis.
- Desde o início do conflito, mais de 67 mil palestinos morreram, enquanto cerca de duas mil pessoas faleceram em Israel.
- O número de feridos ultrapassa 150 mil, e cerca de dois milhões de pessoas estão deslocadas.
- Jornalistas enfrentam riscos elevados, com mais de 250 mortos e 500 feridos, além de campanhas de deslegitimação nas redes sociais.
- Negociações indiretas entre Israel e Hamas ocorrem no Egito, com mediação dos Estados Unidos, buscando um cessar-fogo permanente.
Imagine acordar ao som de uma explosão que faz a casa inteira tremer. Você sente a vibração sob os pés, o barulho ensurdecedor, o estilhaço de vidro no cômodo ao lado, o ar sufocado de pó, fumaça e cheiro de queimado.
Ao sair para o corredor, há paredes rachadas, cabos pendendo, portas despedaçadas. As ruas são um mosaico de escombros: carros carbonizados, fiações elétricas rompidas, restos de mobília espalhados entre pedras e cinzas. Onde antes havia lojas, escolas e praças, agora existem apenas buracos e destroços. No silêncio entre uma bomba e outra, ecoam gritos — de crianças, adultos, socorristas. Gente soterrada, famílias que se procuram, civis escavando concreto com as mãos. O ar é pesado, tomado por gás e fumaça.
Dois anos após o início da guerra entre Hamas e Israel, essa segue sendo a realidade de milhares de civis presos ao conflito.
Dois anos de guerra
O atual conflito é parte de uma história que se arrasta por décadas. Desde a retirada israelense da Faixa de Gaza (2005) e a ascensão do Hamas ao poder (2006), a região vive sob bloqueio e tensão permanente.
Desde o dia 7 de outubro de 2023, mais de 67 mil palestinos morreram em Gaza, entre civis e combatentes, segundo o Ministério da Saúde local. Do lado israelense, cerca de duas mil pessoas perderam a vida. Os números oficiais, porém, não capturam a dimensão humana da tragédia. São mais de 150 mil feridos, muitos com sequelas permanentes, e cerca de dois milhões de pessoas deslocadas de suas casas.
Famílias inteiras foram separadas, e bairros que existiam há gerações deixaram de existir. Hospitais que ainda funcionam estão em ruínas. Faltam medicamentos, energia e água potável. Médicos improvisam curativos em corredores destruídos, operam sem anestesia e veem crianças morrerem por falta de recursos básicos. Para essas pessoas, a guerra não é manchete, é rotina.
O preço da informação
O conflito em Gaza está entre os mais mortíferos para profissionais da imprensa na história recente. Um levantamento conjunto da IFJ e do Sindicato de Jornalistas Palestinos (PJS) registra, até agosto, mais de 250 mortos e cerca de 500 feridos, números que incluem repórteres locais, fixos e freelancers.
Paralelamente aos riscos físicos, jornalistas palestinos enfrentam uma campanha coordenada de deslegitimação. Em redes sociais, surgiram narrativas que acusam profissionais de “encenar” cenas de batalha e sofrimento, juntamente com os termos “Gazawood” e “Pallywood”. Organizações de verificação detectaram contas com grande alcance que amplificam essas acusações. Um relatório da ONG israelense *Fake Reporter* analisou mais de 700 postagens e concluiu que apenas uma pequena parcela continha material verificável.
Em casos isolados, postagens nas redes chegaram a identificar repórteres como supostos alvos. Por exemplo, após o assassinato do correspondente da Al Jazeera, Anas al-Sharif, em agosto, foi divulgada no Telegram uma imagem com rostos de jornalistas marcados por um alvo. ONGs de imprensa e a Repórteres Sem Fronteira (RSF) classificaram a publicação como exemplo de retórica que pode incentivar violência. O autor da postagem negou ter incitado assassinatos, afirmando tratar-se de apoio à eliminação de “terroristas”. Essas disputas ilustram como a desinformação e as campanhas de ódio complicam ainda mais o trabalho de quem cobre a guerra.
Uma paz frágil à vista
Nesta semana, delegações de Israel e do Hamas iniciaram negociações indiretas no Egito, no balneário de Sharm el-Sheikh, em busca de um cessar-fogo permanente que possa, finalmente, interromper o ciclo de violência.
Os encontros contam com mediação dos Estados Unidos, representados pelo enviado especial Steve Witkoff e pelo conselheiro informal da Casa Branca Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Pelo lado palestino, participa Khalil al-Hayya, principal negociador do Hamas. A proposta americana prevê a libertação de todos os reféns israelenses, a entrega do poder em Gaza a uma autoridade tecnocrática (não vinculada ao Hamas) e a retirada gradual das tropas israelenses do território.
O governo de Israel aceitou integralmente o plano. O Hamas, por sua vez, concordou com apenas três dos vinte pontos propostos. As principais divergências envolvem o futuro controle de Gaza e as garantias de segurança para ambos os lados. Trump, que tem pressionado por um acordo rápido, declarou que “a proposta é um ótimo negócio para Israel, os países árabes e o mundo como um todo”. O presidente americano chegou a ameaçar “obliterar” o Hamas caso o grupo inviabilize o acordo, e afirmou acreditar que os reféns “serão libertados muito em breve”.
Negociações em curso
Para quem vive em Gaza, essas negociações não são sobre geopolítica ou estratégia, são sobre a possibilidade de voltar para casa, ou para o que restou dela. Sobre enterrar os mortos com dignidade. Sobre reconstruir uma vida entre os escombros. Para as famílias israelenses que perderam entes queridos ou ainda esperam pelo retorno de reféns, é sobre justiça, segurança e a esperança de que o pesadelo não se repita.
A comunidade internacional observa com cautela, mas o que está em jogo é mais do que um embate geopolítico. Para milhões de pessoas, esta pode ser a chance de interromper uma guerra que já dura tempo demais.
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