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Carney chega tarde ao anúncio

Carney aponta ruptura do sistema internacional e hipocrisia persistente; a credibilidade depende da aplicação consistente de padrões, mesmo com a China

Canadian Prime Minister Mark Carney delivers a speech during the World Economic Forum in Davos, Switzerland, on Jan. 20.
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  • O primeiro-ministro canadense Mark Carney participou do Davos e pediu realismo sobre o mundo, dizendo que o sistema baseado em regras está falhando e que grandes potências atuam com menos restrições.
  • A viagem a Davos foi antecedida por uma parceria estratégica com a China, o que conferiu peso político à mensagem de Canadá ante um cenário de rivalidade entre Estados Unidos e China.
  • Carney descreveu a interdependência como um campo de coerção, com tarifas, infraestrutura financeira e cadeias de suprimento usados como instrumentos de pressão e alavancas de poder.
  • O discurso questionou a historicidade de um “ordem liberal” universal, destacando falhas na aplicação de regras e a hipocrisia de padrões duros para uns e flexíveis para outros.
  • O texto aponta que o Canadá precisa confrontar suas próprias contradições passadas — como doações de vacinas via Covax e exportações de armas, que afetam a credibilidade — para manter uma postura honesta e eficaz em acordos internacionais.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, chegou a Davos, Suíça, com impulso político. Seu discurso no Fórum Econômico Mundial, nesta semana, descartou a ideia de uma transição suave para uma nova fase global e indicou rupturas, menos restrições e uma normalização da coerção. O recado foi direto: o sistema vigente não funciona como era apresentado.

A viagem de Carney também teve um peso estratégico. Antes de Davos, o Canadá encerrou uma parceria estratégica com a China em Beijing. Essa combinação de visitas reforçou a tese de que o país não descreve apenas um mundo mais áspero, mas está em processo de ajuste a ele.

Desvelando a ordem internacional

Carney chamou a ordem internacional baseada em regras de “ficção agradável” e alertou que grandes potências atuam como se não tivessem limites. Disse que o alinhamento entre adesão a regras e segurança não é mais garantido, e que a confiança em cumprir normas é questionável.

Para o canadense, a narrativa de países de “tamanhos médios” pode soar atraente, mas é pouco precisa numa geopolítica marcada pela rivalidade entre China e EUA. A real pergunta é quanto espaço de manobra esses países mantêm entre os pólos rivais.

A evidência da interdependência

Carney destacou que a interdependência mudou os instrumentos de poder: tarifas viraram alavancas, infraestrutura financeira carrega intenções estratégicas e cadeias de suprimento podem virar vulnerabilidades. O acesso a mercados, tecnologias e inputs críticos passa a ditar dependências e coerções.

Ele rejeitou o fatalismo de que “os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”. A alternativa, disse, é evitar acomodação excessiva e não esperar pela segurança pela submissão a regras falhas.

Reflexões sobre a hipocrisia do sistema

O premiê citou o idea de Vaclav Havel sobre “viver dentro de uma mentira”: governos assinam normas, mas praticam de forma desigual. Carney afirmou que o Canadá participou do sistema, tirou proveito da estabilidade, mas reconheceu que muitas regras não eram aplicadas de forma uniforme.

Segundo o discurso, isso explica por que o atual estado de coisas não sustenta legitimidade moral automática. A percepção de justiça varia conforme quem é o violador e quem sofre. O Canadá, porém, precisa enfrentar as incoerências sem perder credibilidade.

O papel do Canadá no cenário atual

Antes de Davos, Carney enfatizou que o Canadá não está ausente de poder, mas limitado pelas dinâmicas entre potências. A admoestação é clara: não se pode exigir que o país escolha entre hegemônios, nem depender de modelos de governança que favoreçam apenas alguns.

O enfoque, portanto, recai sobre infraestrutura da vida moderna: dados, computação, capital, padrões e redes. A ideia é construir coalizões que reduzam o poder coercitivo e elevem a resiliência, sem abrir mão de princípios básicos.

Lições da cena internacional

A visita prévia de Carney a Beijing sinaliza que a China já tem condições de influenciar termos em áreas antes dominadas pela ordem ocidental. Em outras palavras, não existe mais um único quadro hegemônico; há uma competição entre dois grandes sistemas, cada um com suas alavancas de poder.

Enquanto isso, a crise de modelos e a percepção de que “se você não está à mesa, está no cardápio” aparecem em falas de outros líderes, como o ministro da Defesa de Cingapura, Chan Chun Sing. A diferença é o tom diante da prática: para Singapura, a realidade é gerida por meio de capacidades e coalizões, não apenas pela retórica.

Caminhos para uma governança mais honesta

Carney defende transparência nas práticas internacionais. O recado é claro: pare de invocar uma ordem baseada em regras quando a aplicação é desigual, construa coalizões que reduzam alavancas de coerção e exija padrões mesmo quando isso custar, especialmente para voltarmos a ver padrões universais de forma consistente.

O discurso, porém, também levanta dúvida: a honestidade precisa ser acompanhada de memória histórica. Canadá deve enfrentar antigas hipocrisias, como auxílio a vacinas via Covax durante a pandemia, apesar de ter reservas bilaterais substanciais, e a continuidade de exportações de armamentos para certos regimes, sob escrutínio internacional.

Rumo a uma prática mais responsável

A leitura do momento aponta que globalização não falhou apenas em termos de interconexão, mas na governança dessa conectividade. O desafio é transformar a interdependência em cooperação estável, evitando que a busca por eficiência puna os mais vulneráveis.

Carney encerra ao lembrar que abandonar o sinal da ordem vigente é apenas o começo. A tarefa é sustentar padrões quando aliados violam regras e manter a consistência de normas mesmo diante de custos, para que o realismo não vire apenas teatro.

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