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A queda de Rojava

Derrota do SDF reconfigura o tabuleiro regional; aspirações curdas sofrem recuo, Turquia e Síria ampliam influência, e EUA é visto com desconfiança

Turkish security forces disperse protesters near the Nusaybin border gate in Mardin on the Turkey-Syria border on January 20.
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  • O governo sírio, sob Ahmed al-Sharaa, derrotou as Forças Democráticas Sírias (SDF) e expulsou grande parte de seu território controlado, marcando uma guinada importante para os curdos na região.
  • A derrota da SDF prejudica as aspirações de autogoverno curdo e abala a relação entre os curdos sírios e os EUA, que apoiavam a SDF na luta contra o Estado Islâmico.
  • A Turquia ganhou espaço político e militar na região, buscando impedir o emergir de autonomias curdas, ao mesmo tempo em que apoia Sharaa e pressiona para incorporar a SDF ao exército sírio.
  • O regime de Sharaa já havia concedido direitos a curdos na Síria, reconhecendo o curdo como língua nacional em certos contextos e declarando o Nowruz como feriado nacional, em decreto presidencial não debatido previamente.
  • A situação aumenta as tensões na região, com Kobani rodeada por forças do regime e temendo-se aumento da violência nos territórios majoritariamente curdos sob a influência de Damasco e Ancara.

A região do norte da Síria viveu uma semana de confrontos intensos, marcando uma guinada muito significativa desde a queda do regime Baath de Bashar al-Assad. O governo recém‑formado, sob Ahmed al-Sharaa, derrotou as Forças Democráticas Sírias (SDF) e expulsou grande parte de seu território. O esforço militar reforçou o papel dos curdos na coalizão que combateu o ISIS, mas também abriu uma nova fase de incerteza política na região.

Os desfechos militares tiveram reflexos diretos sobre a relação entre Washington e as forças curdas. Sob Mazloum Abdi, a SDF ganhou notoriedade internacional, mas a vitória do governo sírio complica esse alinhamento. A Turquia, por sua vez, vê com olhos positivos o aceno de Sharaa a uma presença mais firme do regime sírio na região curda.

As mudanças começaram em 2014, quando o ISIS avançou pelo norte do Iraque e Síria. Os EUAـ apoiaram um grupo majoritariamente curdo que, posteriormente, formou a SDF, ganhando legitimidade e proteção militar. Em 2024, a queda de Damasco para HTS intensificou a influência de Sharaa, que ganhou reconhecimento internacional e recebeu o apoio de Ancara para consolidar o regime.

Contexto recente

Ankara teme que a autonomia curda possa surgir novamente na Síria, o que alimentaria demandas de autogestão também na Turquia. A Turquia criou e financiou o Exército Nacional Sírio e interveio militarmente três vezes para empurrar a SDF para longe da fronteira. Hoje, Ancara controla áreas significativas no território sírio.

Em termos diplomáticos, o governo dos EUA alterou sua postura; o embaixador Thomas Barrack afirmou que o papel da SDF contra o ISIS expirou, estimando que o governo sírio assumiria a responsabilidade pelos prisioneiros remanescentes. A Central Command dos EUA coordenou operação para transferir insurgentes do ISIS para o Iraque.

Repercussões políticas

A mudança de política dos EUA alimenta desconfianças entre os parceiros curdos e Washington. Além disso, a decisão de Washington de suspender sanções contra a Síria, tomada após conversas com Erdogan, provocou críticas e questionamentos sobre a continuidade do apoio internacional à coalizão curda.

O novo equilíbrio regional tende a favorecer a influência turca na Síria. A Turquia reforça sua posição ao apoiar Sharaa e iniciar movimentos para incorporar a SDF às forças sírias, abrindo espaço para uma intervenção direta caso haja resistência.

Cenário kurdo e mensagens de identidade

O que restou da experiência de autonomia curda na região, especialmente em Rojava, foi apresentado como modelo de governança que combinava poder militar com administração civil. Contudo, as derrotas recentes reduzem as expectativas de um desfecho autônomo na região.

A medida de Sharaa de reconhecer parcialmente direitos dos curdos na Síria, como a língua curda em áreas selecionadas e o feriado do Nowruz, sinaliza avanços simbólicos de identidade. Contudo, essas medidas não garantem um acordo político duradouro com Turquia e redesenham o mapa de alianças na região.

Perspectivas futuras

Com o enfraquecimento da SDF, Ankara e Damasco se veem mais livres para avançar em direções que possam transformar o regionalismo curdo. A ausência de uma solução integrada pode gerar novos episódios de violência, especialmente nos territórios com maioria curda no norte da Síria, incluindo Kobani.

Em síntese, o cenário atual destaca: vitória militar do regime sírio sobre a SDF, reconfiguração de alianças com os EUA, e um recuo significativo das aspirações curdas regionais. A avaliação de atores regionais aponta para um endurecimento de posições, sem indicações de solução rápida para a questão curda no país.

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