Em Alta Copa do Mundo NotíciasAcontecimentos internacionaisPessoasPolíticaConflitos

Converse com o Telinha

Telinha
Oi! Posso responder perguntas apenas com base nesta matéria. O que você quer saber?

O paradoxo do rearmamento europeu

Paradoxo europeu da rearmament: quem mais desconfia de Washington é quem menos assume custos da defesa autônoma, mantendo dependência transatlântica

Germany's Chancellor Friedrich Merz, Italy’s Prime Minister Giorgia Meloni, Spain's Prime Minister Pedro Sanchez, Poland's Prime Minister Donald Tusk, France's President Emmanuel Macron, and Britain's Prime Minister Keir Starmer.
0:00
Carregando...
0:00
  • O paradoxo da rearmamento europeu: países mais céticos em relação aos Estados Unidos são, paradoxalmente, os menos dispostos a arcar com a segurança exclusiva, enquanto quem ainda confia na aliança tende a investir mais em defesa europeia.
  • Dados mostram queda do sentimento de aliança com os EUA entre europeus: 16% ainda veem os EUA como aliado em novembro de 2025, ante 22% oito meses antes; cerca de 20% veem rivalidade ou adversário, chegando a quase 30% na Alemanha, França e Espanha.
  • Casos nacionais ilustram o dilema: Itália gastou 1,54% do PIB em defesa em 2024 (meta da NATO é dois por cento), prometendo chegar a 2,5% em 2028 e 3,5% até 2035, mas com relutância de usar cláusula de escape da UE para déficits; 57% dos italianos são contrários ao aumento de gastos.
  • França permanece em debate entre ambição de autonomia estratégica sob Macron e limitações políticas internas, com aumento de despesas militares (de 32 bilhões de euros em 2017 para 47 bilhões em 2024) e previsão de 64 bilhões de euros até 2027, apesar de instabilidade política.
  • Na prática, na linha de fronteira leste da OTAN, Polônia e Estados Bálticos elevam gastos (acima de 4,7% e 5% do PIB, respectivamente) e mantêm forte ligação aos EUA, enquanto nações do Sul da Europa enfrentam resistência a custos elevados, dificultando uma defesa europeia autônoma efetiva.

Europa vive um paradoxo de rearmamento: os países mais aptos a ocupar o papel militar dos EUA são exatamente aqueles que mais desejam permanecer ao lado de Washington. O fenômeno desafia a lógica política tradicional e se sustenta em pesquisas e análises recente. A confiabilidade americana, sob a segunda gestão Trump, parece enfraquecer, mas o impulso por autonomia europeia não acompanha esse pessimismo.

Dados de pesquisas indicam que, em novembro de 2025, apenas 16% dos europeus ainda viam os EUA como aliado, queda em relação aos 22% de oito meses antes. Cerca de 20% consideram os EUA como rival ou adversário, chegando a 30% em Alemanha, França e Espanha. Mesmo com esse ceticismo, o interesse por defesa europeia autônoma permanece restrito.

A Itália ilustra o paradoxo de forma contundente. O país reconhece a confiabilidade duvidosa de Washington, mas ainda carrega uma tradição pacifista que dificulta entender a deterrência e o aumento de gasto em defesa. Em 2024, a Itália destinou 1,54% do PIB a defesa, bem abaixo da meta de 2%. Houve anúncio de atingir 2% em 2025, mas esse avanço foi em grande parte contábil.

O governo italiano apresentou promessas de chegar a 2,5% do PIB em 2028 e a 3,5% em 2035, mas o ministro das Finanças expressou relutância em usar cláusula de escape da UE que flexibilizaria regras de déficit. A opinião pública acompanha esse governo: mais da metade da população é contrária ao aumento do gasto militar. O plano Readiness 2030, apresentado pela Comissão Europeia, também enfrentou resistência popular, com grande parte dos italianos contrários.

Na França, a trajetória é mais complexa. Desde 2017, o presidente Macron defende a autonomia estratégica europeia e, ao mesmo tempo, elevou o orçamento de defesa. Notas indicam aumento de gastos de 32 bilhões de euros em 2017 para 47 bilhões em 2024, com previsões de 64 bilhões até 2027. Contudo, a fragilidade política interna de Macron reduz sua capacidade de manter compromissos robustos.

As perspectivas para 2027 na França são incertas. O pleito presidencial pode colocar em jogo a continuidade da trajetória de defesa, com candidatos de posições distintas sobre a atuação militar europeia e o apoio a Kiev. Analistas apontam que a esquerda antiarmamento complica a ampliação de gastos; a direita nacionalista favorece a autonomia nacional, mas resiste a contribuições europeias.

Entre os fatores estruturais que alimentam o paradoxo está a dependência nuclear e tecnológica da Europa em relação aos EUA. A França e o Reino Unido possuem arsenais menores e não conseguem replicar a deterrência prolongada. Além disso, a Europa opera com cerca de 178 sistemas de armas diferentes, em comparação com apenas 30 para as forças americanas, o que dificulta a independência em nível industrial e tecnológico.

As coalizões políticas dentro da União Europeia também apresentam contradições. Na esquerda, o antiamericanismo costuma vir aliado à oposição geral a gastos militares. Na direita, o ressurgimento nacionalista pode favorecer gastos nacionais, não o esforço europeu conjunto. Esses cenários tornam a defesa autônoma menos estável politicamente para sustentar compromissos de longo prazo.

Enquanto isso, na linha de frente da OTAN, a situação é diferente. Polônia e países bálticos adotam níveis elevados de gasto: 4,7% da PIB na Polônia em 2025 e 5% nos Estados-membros bálticos para os próximos anos. Estonia projeta mais de 10 bilhões de euros em defesa entre 2026 e 2029. Esses países mantêm forte alinhamento com os EUA devido a uma percepção de ameaça direta da Rússia.

O Berlinamento entre a defesa europeia e o papel americano também aparece na percepção pública. Pesquisas indicam que muitos cidadãos esperam melhoria nas relações transatlânticas após o fim do mandato de Trump, o que alimenta uma visão de que a cooperação continuará, mesmo diante de críticas à política externa dos EUA. Ainda assim, a maioria acredita que a relação permanecerá estável apenas se houver evolução prática de autossuficiência europeia.

Dado o conjunto de fatores, o desafio que permanece é reduzir o incentivo ao chamado efeito de “fretador” — onde quem se sente protegido investe menos, e quem duvida da aliança não investe nada. O que pode quebrar esse ciclo é difícil de projetar, já que muitos governos preferem manter a dependência existente para não comprometer empregos, indústrias estratégicas ou estabilidade fiscal.

O panorama europeu, portanto, persiste com um núcleo de incerteza: as nações mais céticas em relação aos EUA são, paradoxalmente, as menos inclinadas a armar-se de modo colaborativo para uma defesa europeia comum. Enquanto isso, Estados-limites da OTAN, especialmente na Europa Central e de Leste, continuam a ver a aliança como indispensável para sua segurança, justificando investimentos pesados e cooperação tecnológica com Washington.

Comentários 0

Entre na conversa da comunidade

Os comentários não representam a opinião do Portal Tela; a responsabilidade é do autor da mensagem. Conecte-se para comentar

Veja Mais