- A rivalidade entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ganhou proeminência, com ataques sauditas a remessas de armas ligadas ao STC no Iêdo de dezembro e recuo dos Emirados após o STC concordar em se dissolver.
- O afastamento vai além do Iêmen, incluindo pressões sauditas sobre os EUA para sancionar os Emirados e pedidos para expulsar militares dos Emirados na Somália, em retaliação a contratos com Abu Dabi.
- As diferenças refletem visões distintas: Riad historicamente buscava estabilidade, enquanto Abu Dabi segue uma estratégia revisionista, apoiando grupos secessionistas e uso de força, criando entraves à cooperação regional.
- A normalização com Israel e o papel do Abraham Accords ampliam divergências, com a relação entre Riad e Abu Dabi fragilizada após disputas sobre Israel e o eixo de potências regionais.
- Apesar da fratura, não há interesse em ruptura total: ambos procuram conter o Irã e evitar rescaldos na vizinhança, o que pode exigir pragmatismo para uma possível reconciliação no futuro.
O conflito entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos saiu do campo privado para o aberto nas últimas semanas. Em Yemên, ataques aéreos da coalizão liderada pela Riyadh miraram remessas de armas destinadas ao Conselho de Transição do Sul (STC), em dezembro. Riad pressionou Abu Dhabi, que recuou ao final diante da dissolução do STC.
O choque vai além de Yemen. A disputa se estendeu a Sudão, onde os rivais apoiaram lados opostos no conflito civil. Relatos indicam que, no fim de 2025, a Arábia Saudita teria pedido à EUA para sancionar os Emirados, sob acusação de envolvimento na violência sudanesa. O Sudão é um ponto crítico da rivalidade regional.
Divergência de visões estratégicas
A ideia de ordem regional diverge: Abu Dhabi, sob Mohamed bin Zayed, defende uma estratégia revisionista com uso de força e apoio a grupos separatistas, associada a soft power. A Arábia Saudita, historicamente favorável à estabilidade, adota padrões mais agressivos sob Mohammed bin Salman, o que ampliou o desalinhamento.
O relacionamento entre os dois líderes mudou a partir de 2014-2015, quando os Emirados passaram a influenciar Washington e Riade. A relação ganhou impulso com a ascensão de MBS, que recebeu apoio de Abu Dhabi para ampliar sua posição. Essa dinâmica acabou reconfigurando o eixo regional.
Confronto econômico e diplomático
Em 2017, o boicote do Qatar aprofundou a ruptura, com Abu Dhabi conduzindo a coordenação com Riyadh para pressionar vizinhos. Em 2019-2020, a Arábia Saudita manteve um papel de liderar em direções diferentes das dos Emirados, especialmente após acordos de normalização com Israel.
A linha entre cooperação e competição permanece. Enquanto a UAE capitaliza seus ganhos de soft power, a Arábia Saudita busca manter o eixo de alianças tradicionais, inclusive com países ocidentais. A divergência afeta alianças regionais, como com Egito e Bahrain.
Impacto regional e perspectivas
A disputa cria uma nova linha de fraturas entre estados alinhados com Abu Dhabi e com Riade, com Israel e Índia aparecendo como aliados de um dos lados. Observadores indicam que a região pode manter um equilíbrio tenso, sem rupturas completas, enquanto cada parte tenta gerenciar riscos internos.
Ainda assim, o histórico mostra que mudanças rápidas são possíveis. Em 2017, Riade considerou ataque a Doha; quatro anos depois, as relações com o Qatar voltaram a se aproximar. A cooperação futura entre Riad e Abu Dhabi depende de pragmatismo e contenção.
O que muda para o cenário externo
Ambos os países não querem ver um ressurgimento da influência iraniana no Golfo, nem desestabilizar vizinhança próxima. A competição atual pode exigir estratégias mais cuidadosas com países-âncora na região, para evitar custos elevados e manter a estabilidade.
A situação demonstra que, embora a cooperação entre sauditas e Emirados tenha sido fundamental para moldar o século 21 do Golfo, a rivalidade pode chegar a pontos de ruptura, exigindo gestão diplomática contínua.
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