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Rússia redireciona foco para o Brasil após perda de influência na Venezuela

Rússia desloca foco para o Brasil na América Latina após perder influência na Venezuela, visando ampliar cooperação econômica, tecnológica e financeira

Reunião entre delegação da Rússia e governo do Brasil no Itamaraty em 5/2/2026 (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
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  • A Rússia passou a concentrar esforços no Brasil para influenciar a América Latina, após perder espaço na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro.
  • Em Brasília, o primeiro-ministro Mikhail Mishustin classificou o Brasil como principal parceiro econômico da região, destacando liderança brasileira em carne e café.
  • A reunião entre líderes brasileiros e russos teve uma delegação ampla e sinalizou cooperação em energia nuclear, megaciência, exploração espacial, cibersegurança e apoio diplomático, incluindo uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
  • O documento conjunto aborda cooperação nuclear, com interesse em mini reatores e no motor do submarino Álvaro Alberto, além de iniciativas em ciência e tecnologia, ainda com ressalvas sobre riscos de uso dual e proteção de dados.
  • No comércio, houve ênfase em fertilizantes russos para o Brasil e carnes brasileiras para a Rússia; a situação de BRICS e a busca por sistemas de pagamento alternativos ao dólar também foram discutidas, com ressalvas sobre governança e segurança jurídica.

Após uma reunião de alto nível entre Brasil e Rússia, realizada na quinta-feira (5), Moscou sinalizou mudança de foco: desloca esforços de influência na América Latina do terreno venezuelano para o Brasil, em meio a perdas na Venezuela.

A retirada da influência russa na Venezuela ficou marcada pela captura de Nicolás Maduro por forças americanas em 3 de janeiro. Cuba enfrenta embargo de facto, agravado por ações de Washington, para manter o regime estável.

Analistas ouvidos pela reportagem entendem que o governo russo busca no Brasil uma plataforma para ampliar atuação na região, diante do cenário venezuelano. O objetivo seria manter presença estratégica na América Latina.

Discursos e estratégia

O primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, destacou no discurso na CAN o papel do Brasil como principal parceiro econômico na região, com quase metade do comércio latino-americano. Ressaltou liderança brasileira em carne e café.

Para o analista Cezar Roedel, o momento encaixa-se numa reorganização global, com zonas de influência definindo novas fronteiras. Ele aponta aproximação Brasil-Rússia como tendência já perceptível desde o início do governo Lula.

A reunião em Brasília reuniu Mishustin, o vice-presidente Aleksei Logvinovich Overchuk, oito ministros e outros dirigentes, além de assessores, empresários e cerca de 50 profissionais de mídia.

Cooperação nuclear e megacité

A declaração conjunta sinaliza disposição de compartilhar tecnologia nuclear, com foco em cooperação científica, desenvolvimento industrial e segurança internacional. O Brasil busca minis reatores para a Amazônia e apoio ao motor do submarino nuclear Álvaro Alberto.

Analistas alertam para riscos de dual use e para vulnerabilidades em segurança nacional e proteção de dados. Questiona-se a confiabilidade de promessas de repasse tecnológico por parte da Rússia.

Megaciência e ciência

A pauta inclui o desenvolvimento de instalações MegasScience para avanços em nano, biotecnologias, astrofísica, IA e mudanças climáticas. A discussão envolve salvaguardas para evitar uso indevido ou transferência indevida de conhecimento.

Roedel ressalta que a cooperação tecnológica com um país sujeito a sanções exige mecanismos de proteção explícitos. Gianturco avalia que promessas de transferência tecnológica costumam não se concretizar.

Espaço, cibersegurança e cooperação

A visita reforçou promessas de apoio à exploração espacial brasileira, incluindo cooperação com a base de Alcântara e melhorias em cibersegurança. Observadores destacam riscos de acesso a dados críticos sem salvaguardas claras.

Para Roedel, a agenda pode avançar sem garantias suficientes e abrir espaço para usos estratégicos. A assimetria tecnológica é apontada como preocupação central.

Comércio e dependência de insumos

O acordo fortalece o intercâmbio de fertilizantes russos para o Brasil e carnes brasileiras para Moscou. Em 2024, a Rússia respondia por 27,3% das importações brasileiras de adubos; em 2025, ficou em 25,9%, com a China ganhando espaço.

Especialistas destacam a pragmática econômica do eixo, mas alertam sobre vulnerabilidade do Brasil a choques externos e a dependência de insumos estratégicos.

BRICS, pagamentos e cenário financeiro

O texto reforça o diálogo sobre instrumentos de pagamento alternativos ao dólar, no âmbito do BRICS. Lula tem defendido uma nova ordem econômica, com menos dependência da moeda norte-americana.

Roedel alerta para riscos de fragmentação financeira sem governança adequada, o que pode impactar a confiança de investidores. Gianturco aponta resistência interna ao BRICS.

Perspectiva e cautela

A reunião evidencia que o Brasil figura como elo estratégico para a Rússia na região, com promessas de cooperação em petróleo, ciência, tecnologia e espaço. A análise é de que o ritmo dependerá de salvaguardas e de acordos internos.

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