- A Rússia passou a concentrar esforços no Brasil para influenciar a América Latina, após perder espaço na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro.
- Em Brasília, o primeiro-ministro Mikhail Mishustin classificou o Brasil como principal parceiro econômico da região, destacando liderança brasileira em carne e café.
- A reunião entre líderes brasileiros e russos teve uma delegação ampla e sinalizou cooperação em energia nuclear, megaciência, exploração espacial, cibersegurança e apoio diplomático, incluindo uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.
- O documento conjunto aborda cooperação nuclear, com interesse em mini reatores e no motor do submarino Álvaro Alberto, além de iniciativas em ciência e tecnologia, ainda com ressalvas sobre riscos de uso dual e proteção de dados.
- No comércio, houve ênfase em fertilizantes russos para o Brasil e carnes brasileiras para a Rússia; a situação de BRICS e a busca por sistemas de pagamento alternativos ao dólar também foram discutidas, com ressalvas sobre governança e segurança jurídica.
Após uma reunião de alto nível entre Brasil e Rússia, realizada na quinta-feira (5), Moscou sinalizou mudança de foco: desloca esforços de influência na América Latina do terreno venezuelano para o Brasil, em meio a perdas na Venezuela.
A retirada da influência russa na Venezuela ficou marcada pela captura de Nicolás Maduro por forças americanas em 3 de janeiro. Cuba enfrenta embargo de facto, agravado por ações de Washington, para manter o regime estável.
Analistas ouvidos pela reportagem entendem que o governo russo busca no Brasil uma plataforma para ampliar atuação na região, diante do cenário venezuelano. O objetivo seria manter presença estratégica na América Latina.
Discursos e estratégia
O primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, destacou no discurso na CAN o papel do Brasil como principal parceiro econômico na região, com quase metade do comércio latino-americano. Ressaltou liderança brasileira em carne e café.
Para o analista Cezar Roedel, o momento encaixa-se numa reorganização global, com zonas de influência definindo novas fronteiras. Ele aponta aproximação Brasil-Rússia como tendência já perceptível desde o início do governo Lula.
A reunião em Brasília reuniu Mishustin, o vice-presidente Aleksei Logvinovich Overchuk, oito ministros e outros dirigentes, além de assessores, empresários e cerca de 50 profissionais de mídia.
Cooperação nuclear e megacité
A declaração conjunta sinaliza disposição de compartilhar tecnologia nuclear, com foco em cooperação científica, desenvolvimento industrial e segurança internacional. O Brasil busca minis reatores para a Amazônia e apoio ao motor do submarino nuclear Álvaro Alberto.
Analistas alertam para riscos de dual use e para vulnerabilidades em segurança nacional e proteção de dados. Questiona-se a confiabilidade de promessas de repasse tecnológico por parte da Rússia.
Megaciência e ciência
A pauta inclui o desenvolvimento de instalações MegasScience para avanços em nano, biotecnologias, astrofísica, IA e mudanças climáticas. A discussão envolve salvaguardas para evitar uso indevido ou transferência indevida de conhecimento.
Roedel ressalta que a cooperação tecnológica com um país sujeito a sanções exige mecanismos de proteção explícitos. Gianturco avalia que promessas de transferência tecnológica costumam não se concretizar.
Espaço, cibersegurança e cooperação
A visita reforçou promessas de apoio à exploração espacial brasileira, incluindo cooperação com a base de Alcântara e melhorias em cibersegurança. Observadores destacam riscos de acesso a dados críticos sem salvaguardas claras.
Para Roedel, a agenda pode avançar sem garantias suficientes e abrir espaço para usos estratégicos. A assimetria tecnológica é apontada como preocupação central.
Comércio e dependência de insumos
O acordo fortalece o intercâmbio de fertilizantes russos para o Brasil e carnes brasileiras para Moscou. Em 2024, a Rússia respondia por 27,3% das importações brasileiras de adubos; em 2025, ficou em 25,9%, com a China ganhando espaço.
Especialistas destacam a pragmática econômica do eixo, mas alertam sobre vulnerabilidade do Brasil a choques externos e a dependência de insumos estratégicos.
BRICS, pagamentos e cenário financeiro
O texto reforça o diálogo sobre instrumentos de pagamento alternativos ao dólar, no âmbito do BRICS. Lula tem defendido uma nova ordem econômica, com menos dependência da moeda norte-americana.
Roedel alerta para riscos de fragmentação financeira sem governança adequada, o que pode impactar a confiança de investidores. Gianturco aponta resistência interna ao BRICS.
Perspectiva e cautela
A reunião evidencia que o Brasil figura como elo estratégico para a Rússia na região, com promessas de cooperação em petróleo, ciência, tecnologia e espaço. A análise é de que o ritmo dependerá de salvaguardas e de acordos internos.
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