- Florence Gaub, de 48 anos, é politóloga francoalemã que dirige a divisão de pesquisa do Colegio de Defensa da OTAN, em Roma, e se apresenta como a “futuróloga” da aliança.
- Afirmou que uma guerra pode se gestar desde os anos dois mil, quando se descobre o programa nuclear do Irã; conflitos ocorrem quando não se resolve a fonte do impasse e há vontade de agir.
- Entrou na OTAN aos 31 anos; destacou que, apesar de não seguir o perfil clássico, a prática dos militares privilegia soluções que ajudem a resolver problemas.
- Trabalha com horizontes de dois a cinco anos, combinando método e intuição para analisar tendências de fundo e políticas voláteis, buscando cenários úteis para evitar crises.
- Reconheceu falhas passadas (Groenlândia) e que predizê-la guerra na Ucrânia, porém nem sempre é suficiente; enfatizou o papel da comunicação e da regulação da inteligência artificial para evitar conflitos.
Florence Gaub, politóloga franco-alemã que dirige a divisão de pesquisa do Colegio de Defesa da OTAN, atua como futuróloga da aliança. Nascida em 1978, em Munique, hoje com sede em Roma, estuda tendências e cenários para antecipar crises com o objetivo de evitá-las.
A entrevista foi realizada em Paris, em fevereiro, e publicada dias após o início de ataques dos EUA e de Israel contra o Irã. Gaub explica que trabalha com previsões de crise em horizontes de dois a cinco anos, combinando dados demográficos, clima e política para apontar possibilidades reais.
Perfil da pesquisadora
Gaub afirma que a abordagem não é comum entre especialistas em defesa. Ela destaca a prática de pensar em cenários alternativos, ainda que arriscados, para não ficar presa a previsões conservadoras. A diretora ressalta que a OTAN privilegia a segurança prática.
Ela descreve sua motivação pessoal, citando a própria história familiar com a guerra para justificar o interesse por como sociedades digerem conflitos e se recompõem. Afirma ter entrado na OTAN aos 31 anos, buscando perfil bilíngue e conhecimento de Oriente Médio.
Abordagem e foco estratégico
Ao falar sobre o termo futuróloga, Gaub afirma que o rótulo facilita explicar o que faz: mapear situações de conflito ou catastrophe no futuro próximo, identificando tendências e relações de causa e efeito. Sua área de atuação envolve equipes com prazos de seis meses a 20 anos.
Ela reconhece que acertos não são garantia, mas destaca a importância de entender onde falhou. Em casos de erro, prioriza manter hipóteses flexíveis e abandonar hipóteses que não sustentem mais a análise.
Lições de crises passadas
Ao ser questionada sobre falhas, Gaub cita Groenlândia como ponto cego, com sinais que não foram suficientemente observados. Sobre a invasão da Ucrânia, afirma ter previsto o desfecho, atribuindo o acerto aos bons contatos que tinham visto a situação com mais clareza do que seus superiores.
Em relação ao conflito em Gaza, diz que o ressurgimento era previsível, mas aponta a gravidade da violência como surpresa de análise. Ela enfatiza que conflitos não somem, apenas se deslocam e evoluem até encontrar solução.
Desafios contemporâneos e futuro da governança
Gaub ressalta que a atual intensidade de informação dificulta decisões, com dados circulando rapidamente e nem sempre com confiabilidade. Em sua visão, a inteligência artificial representa um risco regulatório, não o maior perigo.
Para o futuro, ela aponta foco no Ártico, no espaço e na área marítima, além de atender questões ligadas à desinformação, ciberataques e sabotagem de infraestruturas. Segundo Gaub, a precisão de quando e como as guerras se iniciam depende de comunicação entre as nações.
Riscos e diplomacia
A pesquisadora sustenta que o risco de uma terceira guerra mundial existe, não por um ato isolado, mas pela soma de acidentes, leituras erradas e escaladas sob pressão. Ela defende investimento simultâneo em defesa e diplomacia para reduzir esse risco.
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