Em Alta NotíciasConflitosPessoasAcontecimentos internacionaiseconomia

Converse com o Telinha

Telinha
Oi! Posso responder perguntas apenas com base nesta matéria. O que você quer saber?

“Um hino à vida”: livro de Gisélle Pelicot vira best-seller na França menos de um mês após seu lançamento

Autobiografia conta a trajetória de abusos causada pelo marido e abre espaço para maior visibilidade da segurança feminina.

Foto: Arnold Jerocki/Getty Images.

“Um Hino à Vida”, livro de Gisèle Pelicot que relata os abusos organizado pelo próprio marido, virou best seller na França na última quarta-feira (25). Publicado há menos de um mês, em 17 de fevereiro, o livro já vendeu 63.574 exemplares da primeira tiragem, estimada em cerca de 150 mil. “Estamos satisfeitos. Este é um […]

“Um Hino à Vida”, livro de Gisèle Pelicot que relata os abusos organizado pelo próprio marido, virou best seller na França na última quarta-feira (25).

Publicado há menos de um mês, em 17 de fevereiro, o livro já vendeu 63.574 exemplares da primeira tiragem, estimada em cerca de 150 mil.

“Estamos satisfeitos. Este é um número muito bom para o lançamento de uma autobiografia” afirmou a editora em entrevista a AFP.

A marca alcançada pelo livro ocorre em meio a um cenário de insegurança em relação à integridade física, emocional e sexual das mulheres no Brasil e no mundo. No Brasil, desde 2015, a média é de quatro casos de feminicídio por dia.

Como a dona de casa comum se descobriu vítima de sucessivos abusos

Lançada no Brasil em 23 de fevereiro pela Companhia das Letras,, a autobiografia foi escrita por Gisèle Pelicot em parceria com a jornalista Judith Perrignon.

Publicado originalmente pela editora Flammarion, o conta a história de Gisèle e como ela descobriu que havia sido drogada pelo ex-marido e estuprada durante anos enquanto estava inconsciente.Também  explica por que a autora decidiu tornar público o julgamento que o condenou e levou dezenas de outros acusados ao banco dos réus, transformando o trauma em um relato de reconstrução.

No início, Gisèle se apresenta como alguém que se via como uma mulher comum, dedicada à família, ao trabalho e ao cotidiano. O livro aposta em detalhes da vida da autora, com ritmo de romance bem construído, para mostrar quem ela era antes de se tornar uma personagem pública.

Depois, ela revisita a vida conjugal e os “sinais” do marido, como uma espécie de detetive íntimo, ao voltar às memórias em busca de pistas que passaram despercebidas e tentar entender a dinâmica do abuso e da manipulação.

Neste capítulo, aparecem elementos como apagões e falhas de memória, mudanças físicas e sintomas que ela atribuía a uma doença. Ao longo da história, fica claro que a autora confiava plenamente em um parceiro que acreditava ser gentil e atencioso em público.

Por fim, a obra chega ao ponto de virada, quando Gisèle se depara com imagens que não reconhecia como sendo dela, e mostra como levou tempo para conseguir nomear o que aconteceu como estupro, justamente por não haver lembrança consciente.

O desfecho acompanha o julgamento de Dominique Pelicot e a reconstrução de Gisèle, que acabou se tornando uma figura pública por causa do crime.

Além de reconstituir o caso, o livro também traz, por baixo das camadas biográficas, discussões sobre a experiência de ser mulher no mundo contemporâneo. 

Um dos ideais reforçados é de que consentimento não é detalhe, ou seja, não é não.

Tanto a obra quanto o caso colocam essa premissa no centro do debate sobre como a lei e a cultura ainda lidam com a violência sexual.

O relato também mostra como a violência pode permanecer invisível durante anos. Em situações com sedação, manipulação e dinâmica conjugal, a vítima pode não ter memória do que aconteceu, o que não reduz a gravidade do crime, mas torna mais difícil perceber, provar e, principalmente, romper o silêncio. 

A partir daí, Gisèle expôs mecanismo: a vergonha como arma social, muitas vezes direcionada a quem sofreu a violência. Ao defender que o julgamento fosse público, ela tentou inverter essa lógica e deslocar a exposição para onde, segundo ela, deveria estar, nos agressores.

O choque, no entanto, não se limita ao que foi feito, mas também a quem fez. Ao descrever o perfil dos réus, pessoas comuns, de idades e profissões diferentes, é reforçada a ideia de que o agressor nem sempre se encaixa em um estereótipo facilmente identificável. A banalidade desses perfis tornam os casos ainda mais surpreendentes.  

No desfecho, a obra também rejeita transformar a reconstrução em espetáculo moral: evita o roteiro da “vítima perfeita” e da “superação exemplar”. Por outro lado, ressalta uma  retomada da vida mais real, com contradições, no próprio tempo, e com o direito de seguir em frente sem ser reduzida ao trauma.

O caso de Mazan

Em setembro de 2020, o estopim do caso ocorreu quando Dominique Pelicot foi flagrado filmando mulheres em um supermercado. A polícia apreendeu seus dispositivos e, ao analisar o conteúdo, encontrou registros que apontam crimes muito mais graves, incluindo arquivos que indicam violência sexual contra a esposa.

A partir das investigações, Gisèle descobriu que o marido a sedava repetidamente com ansiolíticos e indutores do sono, o que a deixava sem condições de consentir. Depois, ele a estuprava e também recrutava homens pela internet para ir à casa do casal e violentá-la enquanto estava inconsciente, com cerca de 50 pessoas envolvidas, além de registrar parte dos crimes em fotos e vídeos.

Só em 2024, quatro anos após o início do caso, Dominique foi a tribunal ao lado de mais de 50 réus. Foi nesse período que Gisèle decidiu abrir mão do anonimato e defender um julgamento público.

Em 19 de dezembro do mesmo ano, Dominique Pelicot foi condenado a 20 anos, a pena máxima para estupro na França. Os demais réus também foram condenados, com penas que variaram conforme a participação de cada um e outras acusações.

Relacionados:

Comentários 0

Entre na conversa da comunidade

Os comentários não representam a opinião do Portal Tela; a responsabilidade é do autor da mensagem. Conecte-se para comentar

Veja Mais