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Serra Leoa ainda consegue salvar a vida de mães?

Cortes da ajuda internacional elevam riscos de saúde materna na Serra Leoa, com hospitais sem insumos e impacto direto em mães e recém-nascidos

A photo illustration depicting images representing the cost of maternal mortality, showing a collection of items: a photo of hands, a few U.S. dollars, a hospital glove, newspaper clippings, and a landscape photo. The various items are stitched in place with red thread.
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  • Kamara teve trabalho de parto obstacular com risco de vida; cirurgia de emergência só ocorreu após mais de duas horas porque o hospital ficou sem suturas, anestésico e fluidos intravenosos.
  • O nascimento de Kamara ocorreu em Sierra Leoa, país pobre da costa oeste africana que depende fortemente da ajuda externa para serviços de saúde.
  • O programa Saving Lives, financiado pelo Reino Unido desde 2016, teve seu orçamento reduzido drasticamente e corre o risco de ser encerrado; fundos passaram de 35 milhões de libras a cerca de 1 milhão de libras.
  • Cortes de ajuda dos Estados Unidos agravam o impacto no setor de saúde, com estimativas de cortes significativos em projetos de saúde materna e infantil; em 2024, os EUA financiaram 3,2 milhões de dólares para serviços reprodutivos.
  • Autoridades estudam alternativas para manter o sistema de saúde, incluindo reformas de financiamento e campanhas de fortalecimento institucional, enquanto uma campanha governamental busca garantir atendimento contínuo durante a gravidez e pós-parto.

FREETOWN, Sierra Leoa — Sonita Kamara entrou em trabalho de parto obstrutio, complicação que pode ser fatal. Ela foi levada ao Princess Christian Maternity Hospital, o maior hospital materno do país, para uma cesariana de emergência.

O bebê de Kamara ficou em sofrimento durante o processo. A equipe médica afirmou que a operação precisava começar em até 30 minutos para evitar risco de morte do feto, mas houve atraso por falta de suprimentos cirúrgicos essenciais.

O hospital não tinha suturas, anestésico e fluidos intravenosos. A família de Kamara foi às ruas buscar os itens em farmácias; após mais de duas horas, os insumos chegaram e a cirurgia finalmente ocorreu.

O bebê nasceu, mas precisou de oxigênio e foi encaminhado para a unidade de cuidados especiais do Ola During Children’s Hospital, a poucos passos de distância. Dias depois, mãe e filho receberam alta.

Sierra Leoa, com quase 9 milhões de habitantes, figura entre os países mais pobres do mundo e depende fortemente de ajuda externa para serviços básicos, incluindo saúde. Em 2023, o país recebeu cerca de 500 milhões de dólares em ajuda oficial ao desenvolvimento.

A assistência internacional foi creditada por reduzir a mortalidade materna desde 2000, apesar de a taxa ter caído significativamente apenas nos últimos anos. Programas de ajuda financiaram unidades de cuidados especiais para recém-nascidos e capacitação de profissionais.

O programa Saving Lives in Sierra Leone, financiado pelo Reino Unido desde 2016, apoiou a unidade de cuidados neonatais de Ola During. Em 2023 houve renovação do programa, com um orçamento de 35 milhões de libras.

No entanto, no início de 2025, o anúncio de cortes de ajuda dos EUA interrompeu muitos projetos. Em março, cerca de 83% das ações apoiadas pelo USAID foram canceladas, afetando serviços de saúde pública.

Em fevereiro de 2025, o governo britânico reduziu a participação de 0,5% para 0,3% do PIB em ajuda externa. Relatos indicam que o Saving Lives foi reduzido de cerca de 17 milhões de libras para 1 milhão de libras, com possível encerramento ainda em 2026.

Fontes oficiais indicam que a queda de financiamento externo dificulta a avaliação de impactos precisos no setor de saúde, mas alerta para efeitos sobre saúde materna, infantil e adolescents. Oficiais de Sierra Leoa trabalham para compreender caminhos de financiamento alternativo.

Apesar das incertezas, autoridades locais veem a possibilidade de realinhamento. O Ministério da Saúde acompanha negociações com o Reino Unido e com os EUA, sem respostas firmes no momento.

Especialistas destacam que outros financiadores permanecem ativos, incluindo Japão, China, Suécia, Canadá, Alemanha e bancos de desenvolvimento. Em 2021, o Banco Mundial liberou 60 milhões de dólares para serviços de saúde materna e infantil, com vigência até 2027.

À luz do panorama, a administração de Sierra Leoa considera a crise como oportunidade para fortalecer a autossuficiência do sistema de saúde. O governo visa ampliar receitas por meio de reformas tributárias previstas no orçamento de 2026.

Em espaços públicos, a resposta à crise continua em construção. O presidente Julius Maada Bio lançou uma mobilização de 300 dias para ampliar atendimento durante a gravidez, parto seguro e acompanhamento pós-natal, com ações a detalhar em breve.

Enquanto médicos e pacientes continuam dependendo de recursos limitados, a vida de Kamara e do bebê permanece como exemplo das dificuldades enfrentadas pela saúde materna na região. O país busca manter o progresso sem depender exclusivamente de ajuda externa.

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