- O esquema de irrigação Gezira, que atende a agricultores na região de Managil, não recebe água desde maio de 2024, prejudicando até quatro mil produtores e dois ciclos de cultivo.
- O sistema depende de canais que levam água do Nilo; após privatização parcial em 2005 e alterações em 2014, as associações de usuários passaram a gerir a distribuição, mas continuam dependentes do apoio estatal para manutenção.
- A retirada de apoio do governo e a falha na manutenção criaram um vazio de supervisão, contribuindo para o desgaste do sistema de irrigação central.
- A situação é agravada pela queda no nível de água no reservatório Sennar, com secas anuais e dificuldades adicionais para quem precisa de bombas para irrigação.
- Agricultores têm recorrido a soluções de energia solar para irrigação, com custos elevados (aprox. R$ 3.500 ou equivalente), privilegiando grandes retomadas de área, enquanto pequenos produtores permanecem sem acesso fácil a água.
O esquema de irrigação de Gezira enfrenta uma crise de longa data que se agravou com a seca. Mohamed Ahmed, em Managil, Gezira, não recebe água desde maio de 2024, prejudicando 1,2 hectares de sua lavoura de sorgo, lentilha e feijão. Ele trabalha na limpeza de canteiros e preparação do solo, esperando pela água.
Até 4 mil agricultores na região de Managil sofrem com a escassez. O sistema de Gezira abrange quase 890 mil hectares, bombeando água do Nilo por meio de uma malha de canais financiada pelo Sennar. Antes de 2005, a gestão era mais centralizada e com manutenção coordenada.
Em 2005 houve privatização parcial da operação. Novas leis, com emenda de 2014, deram aos agricultores liberdade para escolher culturas e criaram associações de usuários de água. Na prática, as associações distribuem água, mas dependem do apoio estatal para manutenção técnica e financeira.
O apoio direto do Estado foi reduzido, levando à demissão de funcionários experientes. A ausência de supervisão contribui para o desgaste do sistema centralizado de irrigação e para a queda de cobertura hídrica em várias áreas do Gezira.
Além disso, o nível de água no reservatório Sennar vem caindo nos últimos anos devido à seca. O engenheiro Abdullah Al-Haj aponta que o problema não é apenas a escassez, mas a falta de uma autoridade executiva para gerir a distribuição como antes.
Milhares de feddans em Gezira perderam irrigação ao longo de 20 anos. Ahmed afirma que as comunidades discutem soluções sem recursos, temendo não cultivar na próxima safra. A promessa governamental não tem se traduzido em ações.
Em outra parte do esquema, Tayeb Gad Al-Mawla utiliza bomba movida a gasolina após a paralisação da manutenção dos canais. Na seção Manasi, ele cultiva tomate e trigo; manter a bomba ligada a cada 25 dias custa cerca de 60 a 70 dólares, recurso essencial para a irrigação.
Abdelhafiz Mohamed, próximo ao rio Nilo em South Shendi, instalou sistema de irrigação solar após um ano sem irrigação. Antes, dependia de bombas a combustível; agora investiu cerca de 17,9 mil dólares em painéis que irrigam aproximadamente 6,3 hectares, reduzindo a dependência de combustível.
A demanda por bombas solares cresce. Mohamed Al-Haj, da GSB Solar, relata que a procura aumentou desde o fim de 2021, com mais quedas de energia. A instalação de um sistema para três feddans fica em torno de 10 milhões de libras sudanesas, cerca de 3,5 mil dólares, custo elevado para pequenos produtores.
Essa migração para o solar expõe um abismo econômico: agricultores com menos recursos ficam à margem desse modelo, enquanto grandes proprietários ou produtores de médio porte conseguem investir. A maioria dos agricultores do Gezira não consegue arcar com o custo inicial.
A reportagem tentou contato com Ibrahim Mustafa, responsável pelo Gezira Scheme, mas não obteve retorno. O silêncio Official reflete a distância entre autoridades e agricultores. Ahmed descreve a situação como abandono estatal, com promessas sem ações.
Para muitos produtores, a irrigação privada é uma saída emergencial. Sem água regular, porém, a decisão é entre manter a lavoura ou optar por alternativas caras, o que envolve sobrevivência, justiça e segurança alimentar local.
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