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Rússia propõe enviar mulheres sem filhos à avaliação psicológica

Rússia propõe encaminhar mulheres que não desejam filhos a psicólogos para estimular maternidade; medida, aprovada pelo Ministério da Saúde, visa conter a crise demográfica

Russas que não pretendem ter filhos serão encaminhadas a psicólogos — Foto: Unsplash
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  • Rússia aprovou uma diretriz do Ministério da Saúde para encaminhar mulheres que declararem não querer filhos a psicólogos, buscando desenvolver nelas uma atitude positiva em relação à maternidade; os homens não estão incluídos.
  • A diretriz, aprovada em fevereiro, faz parte de orientações sobre saúde reprodutiva e determina que médicos perguntem quantos filhos as pacientes pretendem ter.
  • Em 2024, houve mais mortes do que nascimentos em seiscentos mil; a taxa de fecundidade está em 1,4 filho por mulher, bem abaixo do necessário para reposição populacional (2,1). A população, de cento e quarenta e seis milhões, pode cair para menos de noventa milhões até o fim do século.
  • O Kremlin tem endurecido o discurso e políticas para conter o declínio, incluindo lei de outubro de 2024 que proíbe propaganda anti-filhos e prevê multas de até 400 mil rublos; o governo classifica a ideologia sem filhos como uma ameaça externa.
  • Reações entre mulheres, mães e especialistas destacaram preocupações econômicas, sociais e de saúde mental, apontando falhas de políticas anteriores e a necessidade de renda estável, moradia e segurança.

A Rússia aprovou diretrizes que preveem encaminhar mulheres que declarem ao médico não querer ter filhos a psicólogos, com o objetivo de desenvolver nelas uma atitude favorável à maternidade. A medida, aprovada pelo Ministério da Saúde em fevereiro, faz parte de orientações sobre exames de saúde reprodutiva e prevê que médicos perguntem às pacientes quantos filhos desejam ter. A regra não se aplica aos homens na mesma situação.

A iniciativa acontece em meio a uma queda acentuada de natalidade e ao agravamento de uma crise demográfica, impulsionada pela guerra na Ucrânia. Em 2024, a Rússia registrou 600 mil óbitos acima do número de nascimentos, e a taxa de fecundidade caiu para 1,4 filho por mulher, abaixo do nível de reposição de 2,1. A população, estimada em 146 milhões, pode recuar para menos de 90 milhões até o fim do século, segundo projeções oficiais.

A influência da política demográfica é tema de debate no país. Em outubro de 2024, o Parlamento aprovou lei que restringe a propaganda pró-filhos, com multas de até 400 mil rublos para infratores. O governo classifica a ideia de uma “ideologia sem filhos” como uma influência externa que compromete o futuro russo. Medidas anteriores, como restrições ao aborto e incentivos para mães de mais de dois filhos, não teriam revertido a tendência.

Reação pública e relatos

Entre mulheres ouvidas pela AFP, críticas à política se destacam. Uma jovem especialista em TI de 25 anos afirmou não enxergar a maternidade como caminho para a felicidade e questionou o papel do Estado, citando insegurança gerada pela guerra e sanções. Ela descreveu a política como cruel e ineficaz, destacando a necessidade de redes de proteção social, renda estável e moradia.

Outra profissional, Anastasia, de 29 anos, salientou condições econômicas como entrave à maternidade. Com salário próximo de 100 mil rublos mensais, ela apontou dificuldade de poupar para moradia, apontando juros elevados e inflação. Segundo ela, é preciso criar condições reais para que a mulher escolha ter filhos, sem pressões políticas.

Uma professora de inglês, Margarita, que não pode ter filhos por motivos médicos, teme ser enquadrada como caso psicológico e vê riscos de impactos negativos à saúde mental. Ela mencionou a sensação de exclusão gerada pela política.

Entre mães, o debate também é duro. Uma médica de 45 anos, mãe de dois, questionou a lógica de incentivar o parto apenas para cumprir metas estatais, destacando a importância de escolhas livres e bem fundamentadas.

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