- A decisão de Donald Trump de manter o cessar-fogo sem prazo definido, mas com o bloqueio aos portos iranianos no Estreito de Ormuz, aumenta a instabilidade no Golfo Pérsico.
- O diplomata Gérard Araud diz que o Irã vive um vácuo de liderança decisória, com o líder supremo assassinado e um sucessor gravemente ferido, gerando disputas entre círculos militares, religiosos e tecnocratas.
- Segundo ele, os dois lados se veem como vencedores—EUA e Israel têm superioridade aérea; o Irã busca deslocar o conflito para Ormuz—o que dificulta negociações.
- O Irã não enviou representantes para as negociações anunciadas no Paquistão, considerando que dialogar enquanto o bloqueio continua seria uma humilhação.
- Araud aponta inconsistência dos Estados Unidos e o risco de prolongamento do conflito, especialmente com eleições nos EUA, pressões econômicas e Ormuz fechado.
O governo dos Estados Unidos mantém um cessar-fogo sem prazo definido, ainda que preserving o bloqueio aos portos iranianos no Estreito de Ormuz. A leitura é de que tal posição aumenta a instabilidade no Golfo Pérsico e complica a diplomacia com Teerã. A avaliação é do diplomata francês Gérard Araud, em entrevista à RFI, citada pela imprensa internacional. O cenário ganhou tensão após três navios porta-contêineres terem sofrido disparos no estreito, na última quarta-feira, 22 de abril de 2026.
Para Araud, o momento combina ausência de interlocutores claros no regime iraniano com mensagens contraditórias vindas da Casa Branca, o que dificulta negociações. O Irã, segundo ele, já operava com vários centros de poder durante o acordo nuclear, mas hoje não há um árbitro único capaz de tomar decisões estratégicas. O assassinato do ex-líder supremo e a gravidade de ferimentos do atual substituto criaram um vácuo de comando.
O ex-embaixador aponta que diferentes núcleos — Guarda Revolucionária, círculos religiosos e tecnocratas — disputam influência sem liderança central. Esse desequilíbrio interno tende a acirrar disputas sobre caminhos futuros: ceder a pressões internacionais ou manter o confronto, contando com desgaste político de Donald Trump.
Obstáculos à negociação
Para Araud, o principal entrave é que as partes se enxergam como vencedoras. Militarmente, EUA e Israel possuem superioridade aérea e capacidade de ataques; o Irã defende ter deslocado o conflito para o Estreito de Ormuz, afetando a economia global. A partir dessa percepção de vantagem, as tratativas ficam difíceis, pois cada lado reluta em ceder.
Essa situação ajuda a explicar a ausência de representantes iranianos em negociações anunciadas no Paquistão. Teerã entende que dialogar sob o bloqueio marítimo seria visto como humilhação. O diplomata ressalta que o Iran valoriza o prestígio nacional e pretende ser tratado como ator soberano.
Inconsistência americana e risco de descolamento
Araud comenta uma inconsistência observada no discurso dos EUA, com anúncios de acordos seguidos de recuos. Ele cita casos envolvendo o Líbano, em que trégua era mencionada por mediadores, mas negada pelo presidente. Esse padrão, segundo o diplomata, pode minar a confiança internacional nos EUA.
Outro ponto destacado é a periculosidade de depender de uma estratégia que, segundo ele, pode visar explorar divisões internas no Irã. Ainda assim, o ex-embaixador afirma que os discursos de Trump vêm se tornando cada vez mais erráticos, gerando preocupação entre setores militares dos Estados Unidos.
Retaliação e coerência iraniana
Enquanto isso, o Irã atua de forma que Araud classifica como coerente e eficaz dentro de uma lógica de poder relativamente menor. O fechamento do Estreito de Ormuz afeta o comércio global, e o Irã costuma responder com retaliação. Ataques a infraestrutura energética e interrupções a navios foram ações seguidas, segundo o analista, por medidas proporcionais de Teerã.
Esse padrão de resposta simétrica é visto como uma estratégia estável para o Irã, segundo o diplomata, tanto no campo militar quanto político. Com eleições presidenciais americanas previstas para novembro, a avaliação é de que a crise continua e a trégua não equivale ao fim do conflito.
O alerta final é de que, enquanto o Estreito de Ormuz permanecer fechado, a pressão econômica tende a aumentar, afetando também o mercado interno dos EUA. A aposta iraniana, na visão de Araud, é que o custo político da crise seja menor para Teerã do que para Washington.
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