Artigo de opinião. Leio na New Yorker e consigo enxergar a cena. No quarto andar de um prédio no Brooklyn, onde a cama não tem travesseiro, a luz é péssima e a privacidade foi para as cucuias, Nicolás Maduro espera. Come o que lhe dão. Lê. Fala com os advogados quando deixam. Toma banho num […]
Artigo de opinião.
Leio na New Yorker e consigo enxergar a cena. No quarto andar de um prédio no Brooklyn, onde a cama não tem travesseiro, a luz é péssima e a privacidade foi para as cucuias, Nicolás Maduro espera. Come o que lhe dão. Lê. Fala com os advogados quando deixam. Toma banho num cubículo que deve parecer ainda menor para ele, que mede 1,90 m. Desde que entrou ali, saiu duas vezes, ambas para audiências rápidas em Manhattan. A imagem é forte, e pega bem no cenário noticioso lacrador ou para bolha. Do tipo que o jornalismo atual adora porque entrega uma espécie de prazer dopamínico (existe esse termo?) de rolagem de feed do Instagram: o poderoso encolhido, o ex-chefe de Estado reduzido ao tamanho da cela, o tirano transformado em cenário.
Mas não é isso que mais me interessa. Ou melhor: não deveria ser isso que mais interessa a ninguém que leve jornalismo a sério.
Meu incômodo começa justamente onde grande parte da cobertura se acomoda. A vida carcerária de Maduro rende texto, rende clique, rende comentário esperto, rende a falsa sensação de que o caso está sendo acompanhado de perto. Não está. O que está sendo acompanhado de perto é a superfície. O close. A dramaturgia barata da humilhação. O essencial continua mal iluminado. E o essencial, aqui, não é o colchão fino de Maduro. É o método usado para jogá-lo ali. É o precedente. É o fato de que a imprensa, mais uma vez, aceitou seguir o fósforo riscado por Donald Trump e seus iguais em vez de examinar o incêndio.
É isso que me parece covardia no jornalismo atual. Não a falta de opinião, mas a falta de foco moral. A falta de hombridade para encarar o que realmente está em jogo quando um país decide agir como sequestrador internacional e depois vestir essa operação com o figurino da Justiça doméstica.
Porque foi isso que aconteceu. Nos Estados Unidos, o caso anda. E anda de verdade. Maduro e Cilia Flores se declararam inocentes. O juiz Alvin Hellerstein sinalizou que não pretende extinguir o processo neste momento. Mais do que isso: questionou a lógica de impedir o uso de recursos venezuelanos para a defesa. Ou seja, o aparato americano se move, interroga, enquadra, processa, exibe força.
Já no plano internacional, o cenário é outro. A Corte Internacional de Justiça continua mostrando, no eixo Venezuela, o contencioso com a Guiana, não uma ação nova sobre a captura de Maduro. No Tribunal Penal Internacional, o próprio escritório do procurador informou, em março, que “Venezuela II” não tem relação com os eventos de janeiro de 2026. Traduzindo sem enfeite: a Justiça que corre é a deles. A que deveria examinar o alcance internacional da operação, o precedente aberto e a brutalidade institucional envolvida continua imóvel.
Houve gritaria diplomática, claro. Houve condenação política. Especialistas da ONU chamaram a ação de agressão e abdução forçada, com possível violação grave do direito internacional. O Conselho de Segurança debateu o caso. Debateu. E parou ali, porque quando o acusado é também potência com poder de veto o direito internacional passa a valer menos do que o papel em que é impresso.
É neste ponto que a imprensa, a meu ver, se apequena. Em vez de disparar a pergunta decisiva – que tipo de ordem internacional sobra quando Washington decide capturar um chefe de Estado e discutir o resto num tribunal próprio? –, boa parte do noticiário prefere o teatro do personagem. A cela. As bravat…ops…declarações de Trump. A próxima provocação. O próximo gesto de xerife. É o jornalismo ajoelhado diante da pauta do mais espalhafatoso. Trump late, a cobertura corre. Trump encena, a cobertura ilumina. Trump decide quem é o monstro do capítulo, e a imprensa, covarde demais para romper o roteiro, vai atrás.
Eu não escrevo isso para absolver Maduro. Não tenho nenhuma vocação para beato de tirano latino-americano. Se houver prova robusta, que ele seja condenado. O ponto não é esse. O ponto é que uma coisa é cobrar a responsabilidade penal de Maduro. Outra, muito diferente, é naturalizar que os Estados Unidos possam agir como polícia do planeta, escolher alvos de forma seletiva, atropelar o que convém atropelar e depois pedir aplausos em nome da civilização. Quando o jornalismo embarca nisso sem separar uma coisa da outra, ele troca apuração por torcida.
E a conta, como sempre, não fica com o personagem central. Fica espalhada.
Cuba sentiu. E sentiu feio. Depois da captura de Maduro, Washington passou a bloquear o envio de petróleo venezuelano ao regime cubano e a ameaçar com tarifas países que abastecessem a ilha. Miguel Díaz-Canel, presidente cubano, disse em março que a ilha estava havia três meses sem receber combustível. Três meses. Depois veio um carregamento russo suficiente para poucos dias. É isso que some da cobertura quando o noticiário prefere se debruçar sobre o banho de sol do preso ilustre: a geopolítica real cai em cima de gente que não assinou despacho, não moveu tropas, não redigiu nota diplomática, não comandou operação nenhuma.
Na Venezuela, o efeito também foi cruel. Primeiro veio o choque bruto: medo, sensação de que alguma coisa pior poderia acontecer, temor de novos ataques e de mais repressão. O país entrou naquele estado em que a vida cotidiana continua andando por inércia, mas a política já contaminou o ar. Ao mesmo tempo, o motor econômico do país – petróleo, sempre ele – travou no calor da crise. Depois, o roteiro conhecido voltou a se impor. Em março, as exportações já tinham superado um milhão de barris por dia sob supervisão americana. Multinacionais de interesse oleoso norte-americano como a Vitol, Trafigura, Chevron e Halliburton ampliaram presença e voltaram a negociar. FMI e Banco Mundial retomaram relações com Caracas. Bilhões represados passaram a ser vistos como possibilidade concreta de desbloqueio. A dívida voltou à mesa. O povo ficou com o susto, com o limbo e com a desordem.
É impossível não notar o que costura tudo isso. Petróleo. Sempre petróleo. Não gosto da preguiça mental que explica o planeta inteiro com uma única palavra, mas também não sou afeito ao fingimento. E fingir que o petróleo é um detalhe neste caso seria idiotice. A Venezuela tem as maiores reservas do mundo. No caso do Irã, bastou um mês de guerra e bloqueio para o barril disparar e gigantes como Chevron e Exxon verem subir bilhões em receita adicional. Nem toda operação militar nasce apenas do petróleo, claro. Mas é raro que ele esteja longe da mesa quando uma superpotência resolve vestir a fantasia moral do dia.
A essa altura, a engrenagem já está montada. De um lado, o gesto duro, performático, vendável. Do outro, a cortina de fumaça. Em ambientes viciados em ruído, toda bomba documental também serve para embaralhar prioridades. E dá-lhe o “diretor da redação global” a criar pauta para encobrir arquivos Epstein e tudo o mais que não lhe interessa. O problema é que nada disso responde à captura de Maduro, arranca a Justiça internacional da letargia, põe combustível em Cuba, devolve previsibilidade à Venezuela. Apenas entope o espaço mental do público. E o jornalismo, em vez de furar essa névoa, muitas vezes prefere passear dentro dela.
A pergunta que fica é simples, e justamente por isso tão evitada. Se Donald Trump se enxerga como polícia global, por que essa valentia nunca se distribui com a mesma disposição por outros cenários? Por que não há o mesmo voluntarismo punitivo diante da Coreia do Norte? Por que não há o mesmo teatro salvacionista diante da Arábia Saudita? Por que o Tibete segue sob esmagamento metódico da China sem que o xerife do planeta apareça montado em sua retórica de costume? A resposta não é misteriosa. Império não é coerência moral. Império é seletividade. Escolhe alvos. Escolhe linguagem. Escolhe risco. Escolhe custo. Escolhe onde posar de paladino e onde fazer negócios em silêncio.
O mínimo que eu esperaria do jornalismo era que não se deixasse domesticar por isso. Que parasse de agir como plateia da pista VIP do Allianz Parque durante a performance do poder mais barulhento da Terra. Que lembrasse que sua função não é admirar a coreografia da captura, nem se embriagar com a queda cinematográfica do vilão, mas rastrear a arquitetura da força, o duplo padrão, a assimetria, a conta jogada sobre inocentes e a hipocrisia embutida na pose.
Maduro pode mofar meses no Brooklyn. Pode mofar anos. Pode até morrer ali. Ele merece. Mas nada disso resolve a pergunta principal. O que se faz com um mundo em que a legalidade internacional serve de sermão para os fracos e de adereço opcional para os fortes? O que se faz com um jornalismo que, diante disso, prefere comentar o uniforme bege do preso em vez de enquadrar o carcereiro?
É por isso que o caso Maduro, para mim, importa menos como novela de personagem e mais como diagnóstico de método. E é por isso também que o jornalismo atual me parece tão covarde. Não porque critique pouco Maduro. Mas porque critica de menos o poder que escolhe quem pode ser capturado, quem pode ser esmagado, quem pode ser ignorado e quem pode virar pauta permanente.
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