- Em dezembro de 2024, o rei Micanor, líder da Viv Ansanm, ordena um ataque em Wharf Jérémie que deixa 207 pessoas mortas em seis dias, a maioria idosos, entre 6 e 11 de dezembro.
- O filho do líder, Benson Altes, morre em 7 de dezembro, e Micanor ordena a morte de familiares próximos dos anciãos, além de sequestrar, torturar e matar dezenas de pessoas ao longo do período.
- Os corpos são queimados, jogados no mar ou enterrados; há relatos de degola, desmembramento e uso de fogo para ocultar as vítimas.
- O massacre está ligado a crenças no vodu e à alegação de uma maldição de “homens-lobos”; sobreviventes descrevem cenas de terror, toque de recolher e barricadas diárias no bairro.
- Quase um ano e meio depois, o caso permanece sem responsabilização efetiva, mesmo com testemunhos de sobreviventes e documentos de organizações de direitos humanos e da ONU.
O massacre de Wharf Jérémie, em Porto Príncipe, foi perpetrado entre 6 e 11 de dezembro de 2024 pela confederação Viv Ansanm, liderada pelo indivíduo autodenominado rei Micanor. Ao todo, 207 pessoas foram mortas, na maioria idosas, durante seis dias de violência intensa na capital haitiana. A operação foi descrita como resposta a uma suposta ameaça de “feiticeiros” conhecidos como homens-lobos.
O caso envolve famílias de moradores do bairro Wharf Jérémie, controlado pela Viv Ansanm, que domina parte da cidade. Testemunhos indicam que o extermínio incluiu assassinatos, sequestros, torturas e destruição de laços comunitários, com corpos queimados ou lançados ao mar. A violência coincidiu com o colapso de serviços públicos na região, agravando a crise humanitária local.
Segundo relatos de sobreviventes e de especialistas, o objetivo do ataque foi eliminar supostos agentes de violência ligados aos anciãos do bairro. O próprio Micanor, citado como líder do grupo, confirmou atos violentos como resposta a ameaças percebidas, sem esclarecer definitivamente a origem das supostas maldições que teriam afetado seu filho.
Entre 9 e 11 de dezembro, a violência se intensificou com bloqueios, sequestros adicionais e novas execuções. Relatos indicam que dezenas de pessoas foram levadas ao Centro de Treinamento da gangue, torturadas e mortas, com restos descartados de diferentes maneiras. O medo levou muitos moradores a permanecerem dentro de casa.
A cidade de Porto Príncipe permanece sob forte presença de gangues, com grande parte da população ainda sem acesso a serviços básicos. Equipes de segurança internacionais e civis tentam acompanhar a situação, mas as operações de contenção enfrentam repetidos obstáculos, como barricadas e ataques a infraestruturas públicas.
Especialistas e pesquisadores ouvidos pela imprensa destacam que o vodu, prática religiosa associada ao povo haitiano, foi utilizado como retórica de controle e legitimação de ações violentas, embora não haja consenso sobre a relação direta entre crenças religiosas e as agressões. A narrativa envolve ainda memórias traumáticas que persistem na população.
Relatos coletados por organizações de direitos humanos e pela ONU indicam que o líder Micanor buscou consolidar poder ao impor toque de recolher, confiscar celulares e punir dissidências, sob a justificativa de proteger a comunidade de supostos inimigos. A violência tornou-se símbolo de impunidade para grupos organizados na região.
Entre as vítimas, estavam famílias inteiras, incluindo idosos, filhos e parentes de diversas idades, cujos nomes aparecem em registros de testemunhos sob proteção. A sequência de ataques gerou deslocamentos e colocou à prova a capacidade do Estado de responder à crise, bem como a presença de forças de proteção no território.
Ao longo dos dias, operadores de direitos humanos relataram dificuldades de acesso a Wharf Jérémie para coleta de depoimentos. A cobertura midiática local e internacional destacou o impacto humanitário, com relatos de devastação urbana, interrupção de serviços e temores de represálias.
No desfecho parcial do levantamento, a narrativa aponta para um período de forte repressão, seguido por tentativas de normalização forçada pelo grupo dominante. Ainda não há responsabilização judicial definida para Micanor ou para os demais membros da Viv Ansanm, em meio a investigações em curso.
A população local continua a lidar com as consequências psicológicas e sociais do episódio, além da perda de familiares e do sentimento de insegurança permanente. Organizações de defesa dos direitos humanos reforçam a necessidade de proteção às testemunhas e de responsabilização adequada.
O episódio deixa uma marca dura na memória coletiva de Porto Príncipe, ampliando o debate sobre violência de gangues, impunidade e mecanismos de proteção à população civil em contextos de crise prolongada. As investigações seguem em andamento para esclarecer responsabilidades e reparar danos às vítimas.
Fontes e contexto adicionais: reportagens de BBC News Brasil, Terra e organizações internacionais que acompanham a crise no Haiti.
Entre na conversa da comunidade