- Após o cessar-fogo entre Estados Unidos, Israel e Irã, cresce a circulação de imagens de mulheres em Teerã sem véu nas ruas.
- A vida pública voltou a ocupar espaços, com vendedores e músicos nas calçadas e queda de postos de controle em áreas centrais.
- As autoridades parecem tolerar, em alguns bairros, o uso menos rígido do véu, mas a obrigatoriedade continua prevista em lei.
- Há quem veja a situação como tolerância passageira ou sinal fraco de mudança real, enquanto outros afirmam que não houve avanço nos direitos das mulheres.
- Mesmo com imagens públicas de mulheres sem véu, direitos femininos permanecem restritos, e o hijab continua exigido em bancos, universidades e órgãos públicos.
Desde que houve um cessar-fogo entre Estados Unidos, Israel e Irã, imagens de mulheres em Teerã sem véu ganharam espaço nas redes. A reportagem apura como esse fenômeno se desenhou e quais fatores sustentam a aparente flexibilização.
Nas ruas da capital, a atividade retomou o ritmo: vendedores, músicos e pedestres voltaram a ocupar as calçadas, enquanto a presença de policiais em pontos de controle diminuiu. Em alguns bairros, o ambiente é menos rígido, com maior circulação feminina sem véu.
Entre as associadas ao movimento, está Ziba, uma iraniana de cerca de 40 anos. Ela diz que o véu foi imposto em 1979 e hoje representa uma pressão externa que não condiz com a identidade do país. Para ela, é uma vitória que precisa ser defendida, sem abrir mão.
Durante os protestos de 2022, ligadas à morte de Mahsa Amini, muitas mulheres passaram a cobrir apenas os ombros para evitar represálias. Hoje, esse gesto preventivo já não é mais comum em parte da cidade, segundo relatos coletados.
Pintora iraniana que vive em Paris, que pediu anonimato, afirma que a mudança observada não indica avanço do governo. Em Teerã, a realidade das liberdades individuais, segundo ela, não sofreu alteração concreta.
A obrigatoriedade do véu segue prevista em lei e continua como fundamento da teocracia. O que mudou foi a aplicação mais branda do requisito, ao menos em alguns bairros da capital e em outras cidades.
Essa tendência já apareceu durante a guerra de 2025 contra Israel e permaneceu nos protestos de dezembro pela alta no custo de vida. Ainda vigora no contexto do conflito entre EUA e Israel, atualmente suspenso por um cessar-fogo frágil.
Há relatos de que setores da população veem a situação com ceticismo. Zahra, moradora de Isfahan, diz que não usa mais o véu, mas lamenta que a experiência não reflita uma mudança de governo.
Apesar da percepção de maior tolerância, o hijab continua presente no cotidiano. Vans da polícia moral não circulam com a mesma frequência, mas há abordagens em bancos, universidades e órgãos administrativos.
Riscos e custos
Nos bastidores, há custos para quem desafia a norma. Gerentes de cafés relatam fechamento de estabelecimentos, multas e exigência de subornos. O discurso oficial também provoca irritação entre mulheres que veem a liberdade como um direito limitado.
Relatos de prisões, reprimendas e pressão social permanecem, conforme organizações de direitos humanos. Especialistas apontam que a resistência à obrigatoriedade influi na política pública, ainda que as manifestações públicas sejam restritas.
Para algumas moradoras, a aparente normalização não representa mudança estrutural. Sahrzad, dona de casa de 39 anos, afirma que o movimento ganhou adesão, porém sem transformação do sistema.
A variação regional persiste: a aparente tolerância não é uniforme no país, e não há sinal claro de duração dessa abertura. Os próximos passos continuam incertos, sob vigilância de autoridades e da sociedade.
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