- França alterou sua doutrina nuclear em março e prepara o aumento do arsenal; surge a ideia de uma dissuasão avançada, com possibilidade de aeronaves e mísseis operados fora do território francês.
- A estratégia não é um guarda-chuva formal da OTAN, mas busca complementar a aliança, permitindo que países europeus hospedem mísseis nucleares franceses em situações de crise.
- Países europeus temem que, caso o presidente dos Estados Unidos retire o guarda-chuva nuclear, a Europa precise de um plano B que possa ser acionado rapidamente.
- A parceria entre França e Reino Unido permanece, com cooperação nuclear fortalecida e a Declaração de Northwood, anunciada para reforçar esse alinhamento; há diferenças entre arsenais e independência operacional.
- Segundo o especialista Bruno Tertrais, não há expectativa de que Europa construa bombas nos próximos anos, mas a situação atual torna a dissuasão mais complexa diante de alianças ocidentais que passam por tensões.
A Europa precisa de um plano B para dissuasão nuclear caso Trump afaste o guarda-chuva americano, diz Bruno Tertrais, especialista francês. Em entrevista ao Estadão, ele aponta que a mudança da França na doutrina nuclear ocorre em meio à instabilidade com Washington. O objetivo é manter a dissuasão diante de riscos de decisão unilateral dos EUA.
Tertrais afirma que a nova estratégia francesa, denominada Dissuasão Avançada, representa a maior mudança desde a Guerra Fria. Ela amplia o arsenal e prevê que aeronaves e mísseis franceses atuem também em território europeu, sem substituir a Otan, mas fortalecendo a dissuasão conjunta.
Ele também diferencia o programa nuclear da França do da Otan e destaca que Paris mantém independência estratégica, ainda que compartilhe concepções de dissuasão com aliados. A França não integra o Grupo de Planejamento Nuclear e mantém doutrina própria, com ênfase em avisos sem escalada automática.
Plano B e possíveis cenários
O especialista diz que o plano de contingência precisa ser rápido caso o governo americano mude de posição. Segundo ele, um dia o presidente Donald Trump pode publicar uma decisão que afaste o guarda-chuva europeu, exigindo resposta europeia ágil.
A ideia é que países europeus observem exercícios nucleares franceses e decidam se hospedam aeronaves nucleares francesas em caso de crise. O processo seria bilateral e não envolve um guarda-chuva formal dentro da Otan.
Diferenças entre arsenais e cooperação
Bruno Tertrais explica que o arsenal francês é mais diversificado, incluindo submarinos e aeronaves, diferente do britânico, que se apoia principalmente em submarinos. A dissuasão do Reino Unido é operacionalmente independente, porém dependente dos EUA para planejar armas.
A cooperação nuclear entre Paris e Londres é fortalecida pela Declaração de Northwood, prevista para 2025, enquanto a França mantém controle exclusivo sobre suas armas, sem compartilhamento total com a Otan.
Perguntas sobre o futuro e outros países
Alguns leitores perguntam se Alemanha, Polônia ou Suécia poderiam desenvolver armas próprias. O especialista nega veementemente a viabilidade no curto prazo, citando custos, cenário político e apoio interno insuficiente para tal salto.
Tertrais aponta que a Europa está mais protegida quando há alianças fortes, mas reconhece que o ecossistema de segurança global pode se tornar mais frágil. A dissuasão para a França envolve também cooperação com o Reino Unido.
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