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Diário de Veneza 1: artistas recusam fascismo aconchegante no Giardini

Naumann questiona estética fascista no Pavilhão alemão; Bienal enfrenta críticas de neutralidade política e controvérsias sobre curadoria e direitos humanos

Maja Malou Lyse at the Danish Pavilion at the 2026 Venice Biennale.
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  • A instalação do Pavilhão Alemão, de Henrike Naumann, desmonta a ideia de “conforto” ao incorporar cortes em cortinas e objetos que dialogam com o fascismo; Naumann morreu em fevereiro, aos 42 anos.
  • A Bienal de Veneza, sob o novo presidente Pietrangelo Buttafuoco, é cercada de controvérsia por ligações dele com politics neo-fascistas e pela alegação de neutralidade na participação de países.
  • O júri chegou a excluir pavilões de países com líderes acusados de crimes contra a humanidade, mas passou a abandonar o cargo pouco depois, gerando incerteza sobre o processo de seleção.
  • Destaques marcantes podem incluir o Pavilhão Austríaco de Florentina Holzinger, “Sea World”, com uma piscina de água suja e performer nua; o Pavilhão Dinamarquês, com campanhas de fertilidade em realidade virtual; e o Japão, por Ei Arakawa, que convida o público a carregar bonecos de bebê pelas obras.
  • As obras exploram a relação entre estética, política e poder, com críticas à instrumentalização da arte para lazer, reputação e controle, provocando debates sobre consumos estéticos e responsabilidade institucional.

Venice Diary Day 1 acompanha o clima tenso no Giardini: o que está em jogo envolve arte, política e a relação entre estética e regimes. Henrike Naumann, artista do Pavilhão alemão, transformou o espaço remodelado pelos nazistas em 1938, acrescentando rasgos em cortinas e objetos que misturam convívio doméstico com símbolos perturbadores. A ideia é justamente questionar a ideia de “conforto” sob fascismo.

O Dia 1 também marca a estreia sob a presidência de Pietrangelo Buttafuoco, cuja composição é alvo de debates sobre neutralidade na participação de países acusados de crimes contra a humanidade. A comissão julgadora já sinalizou que pavilões de líderes sob tais acusações não disputariam o Leão de Ouro, mas recuou e não explicou a mudança de posição.

Na exposição, Naumann revela uma instalação que reúne objetos como máscaras de gás e símbolos agressivos, dispostos em uma grade, em contraste com itens decorativos de uso doméstico. O efeito é abrir uma questão sobre o espaço privado como palco de tensões políticas. A artista faleceu em fevereiro, aos 42 anos, antes de ver a montagem concluída.

H3 Exterior e outras leituras

No exterior do prédio, Sung Tieu colabora com Naumann para desfocar a linha entre arquitetura doméstica e política, recriando a fachada mosaico de uma antiga casa de trabalhadores da era socialista. A dupla busca discutir a fricção entre gostos distintos e oposições políticas.

Dentro do pavilhão americano, o espaço aparece quase vazio, levantando debates sobre a relação entre o momento político atual e a produção artística. O contraste com a qualidade de outras narrativas é perceptível, e o público observa como a estética de cada país dialoga com o contexto histórico.

O Pavilhão da Grécia, rememorando 1934, trabalha a tensão entre história clássica e nacionalismo moderno, com peças que utilizam colunas cartoonizadas e referências a temas de poder. Andreas Angelidakis questiona se a crítica ao fascismo vem de uma leitura atual ou se apenas repete clichês estéticos. O conjunto provoca discussão, sem oferecer respostas fáceis.

H3 Experiências e futuro

Entre instalações marcantes, Florentina Holzinger, no Pavilhão da Áustria, apresenta Sea World: uma performance que envolve água, nudez e uma expectativa de choque sensorial. O cenário mistura humor, grotesco e reflexão sobre a relação entre poluição, higiene e corpo em espaço expositivo.

Na Dinamarca, Maja Malou Lyse, com o coletivo DIS, aborda a reprodução e a genética, apresentando mensagens sobre fertilidade em tela imersiva, por meio de imagens de bebês e corpos femininos em roupas mínimas. Já no Japão, Ei Arakawa sugere peso emocional ao conduzir visitantes com bonecos que representam o futuro da ideia de maternidade frente a guerras e ataques.

Os textos de parede apontam para uma crise de natalidade como reflexo de erosão de intimidade, sem explorar as causas políticas profundas. Em contrapartida, a obra de Arakawa convoca o público a sentir o impacto humano da reprodução, incluindo a gestão de riscos e violência. O dia no Giardini evidencia uma Bienal que não teme enfrentar contradições, mesmo quando a interpretação pode ser ambígua.

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