- Leneide Duarte‑Plon lançou na França a edição em francês de “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil” pela editora L’Harmattan; o livro já havia saído no Brasil em 2016 e foi traduzido para árabe, publicado na Argélia no ano passado.
- A obra defende que a tortura foi doutrina de Estado francesa desde a Guerra da Argélia (1954‑1962) e foi exportada para ditaduras da América do Sul.
- Entre as entrevistas destacadas, está a com o general francês Paul Aussaresses, que reconheceu o papel da França na institucionalização da tortura e confirmou participação brasileira no golpe no Chile.
- A autora argumenta que, após o golpe de 1964, a doutrina do “inimigo interno” foi usada no Brasil para treinar as Forças Armadas no combate à população civil.
- Em 2018, o presidente francês Emmanuel Macron reconheceu crimes de Estado na colonização argelina, o que, segundo a autora, abriu espaço para o debate histórico na França sobre esse passado.
Leneide Duarte-Plon lançou na França a edição francesa de A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil, pela editora L’Harmattan. O livro, originalmente publicado no Brasil em 2016, já tinha versões em árabe e Argélia, e agora chega ao público francês com base em documentos, entrevistas e pesquisa histórica.
A obra sustenta que a tortura foi uma doutrina de Estado, aplicada pela França na Guerra da Argélia (1954-62 e depois exportada para ditaduras da América do Sul. A autora destaca que o tema permanece atual no Brasil, tema que aborda em entrevistas diversas ao longo do livro.
Duarte-Plon viveu 24 anos em Paris, atuando como jornalista. Retornou ao Brasil no ano passado e dedicou parte de sua obra à análise de mecanismos de repressão estatal, incluindo a tortura. Entre os trabalhos está a coautoria de Um homem torturado, de 2014.
O livro reúne entrevistas com o general francês Paul Aussaresses, figura-chave da repressão na Argélia. Na posição de coronel, ele foi chefe da repressão e um teórico da tortura, execuções sumárias e desaparecimentos. Aussaresses reconheceu o papel da França nos métodos, sem demonstrar arrependimento.
A autora relata que Aussaresses confirmou a origem e a evolução da doutrina, incluindo a participação de governos estrangeiros, como o brasileiro, em contextos de repressão. O testemunho dele é apresentado como central para compreender a institucionalização da tortura.
Em entrevista à RFI, Duarte-Plon discute a circulação da violência entre conflitos coloniais e regimes sul-americanos. A jornalista explica como a teoria de Roger Trinquier influenciou a prática francesa na Argélia e depois serviu de molde para ações na América do Sul.
A obra afirma que a lógica do inimigo interno substituiu o inimigo externo após 1964 no Brasil, associando pessoas como padres progressistas, professores e militantes à repressão. Segundo o livro, a definição de guerra civil foi usada para justificar ações de Estado.
O livro teve demora na edição francesa, mas o reconhecimento de fragilidades do passado colonial ganhou espaço público na França. Em 2018, o presidente Macron reconheceu crimes de colonialismo e de tortura, fortalecendo o debate histórico no país.
Segundo Duarte-Plon, a decisão da editora francesa de manter o título original reforça o impacto da obra. O objetivo é evidenciar que governos franceses exportaram métodos de violência para outros contextos históricos.
Ao falar sobre o Brasil atual, a autora aponta que a anistia não revisada mantém espaço para que militares voltem a influenciar a arena política. Ela vê avanços na sociedade brasileira na construção de limites ao poder civil.
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