- Em 24 de fevereiro de 1996, caças cubanos derrubaram duas aeronaves da organização Irmãos ao Resgate, matando os quatro ocupantes.
- O episódio provocou a maior crise Cuba–EUA desde a Guerra Fria e resultou no endurecimento de sanções americanas contra Cuba.
- Três décadas depois, os EUA apresentaram acusação criminal contra Raúl Castro pela derrubada das aeronaves, enquanto ele permanece uma figura política influente em Cuba.
- A operação ocorreu no contexto do Período Especial, durante o colapso da URSS, quando muitos cubanos buscavam chegar aos EUA.
- As consequências incluíram a promulgação da Lei Helms-Burton, que endureceu o embargo, e a indenização das vítimas pelas autoridades americanas, somando 93 milhões de dólares.
O governo dos EUA indiciou nesta quarta-feira Raúl Castro pela derrubada de aviões da organização Irmãos ao Resgate, ocorrida em 24 de fevereiro de 1996, no Estreito da Flórida. O ataque causou a morte de quatro membros da missão e provocou uma crise duradoura nas relações entre Cuba e os EUA. A acusação chega 30 anos após o episódio.
Na ocasião, três aeronaves civis da Irmãos ao Resgate decolaram da Flórida para uma missão de vigilância e resgate de migrantes cubanos. Dois aviões foram abatidos por caças cubanos MiG-29; a terceira aeronave conseguiu escapar. Entre as vítimas estavam cidadãos norte‑americanos; o piloto José Basulto sobreviveu.
Raúl Castro exercia na época o cargo de ministro das Forças Armadas de Cuba, sob o governo de Fidel Castro. A investigação atual sustenta que a decisão de atacar partiu de Raul Castro, com o envolvimento de outros escalões do regime.
O episódio ocorreu em pleno Período Especial cubano, quando o país enfrentava grave crise econômica decorrente do colapso da URSS. A crise levou milhares de cubanos a tentar chegar aos EUA em barcos e balsas, aumentando o clima de tensão regional.
O ataque foi condenado pela comunidade internacional. As Nações Unidas aprovaram uma resolução de condenação ao uso de armas contra aeronaves civis em voo, e os EUA endureceram o embargo econômico contra Cuba, com efeitos que se estenderam por décadas.
A versão oficial de Cuba é de que as aeronaves invadiram o espaço aéreo cubano, configurando uma ameaça à segurança nacional. Diversos analistas destacam que o episódio também teve motivações políticas, mirando frear qualquer avanço de normalização com Washington.
Testemunhas da época descrevem a operação como um movimento estratégico para impedir trajetórias de distensão entre Havana e Washington, evitando mudanças no poder econômico dentro da ilha. A interceptação foi realizada sem aviso prévio aos pilotos.
O relatório histórico aponta infiltração cubana no grupo, com um espião que forneceu informações sobre rotas e alvos. A personagem Raúl Castro aparece em registros e declarações de época, sugerindo coordenação entre o alto comando militar e o governo.
Como consequência, o episódio consolidou uma fase de hostilidade entre os dois países e atrasou esforços de aproximação que vinham sendo discutidos entre Clinton e Havana na década de 1990. A Lei Helms-Burton, aprovada em 1996, endureceu o embargo norte‑americano contra Cuba.
Ao longo dos anos, Cuba passou a sustentar que a resposta ao ataque foi legítima defesa, enquanto alvos externos passaram a questionar a legalidade internacional das ações cubanas. A controvérsia permaneceu no debate público e acadêmico.
Indenizações para as vítimas foram pagas pelo governo dos EUA, no valor de US$ 93 milhões, a partir de ativos cubanos congelados. Havana, por sua vez, mantém a recusa de compensação direta às famílias sob sua jurisdição.
O caso continua a ter peso simbólico para Cuba e para a comunidade de exilados cubanos em Miami. As autoridades americanas reiteraram a normalidade do processo, mantendo o foco na busca por esclarecimentos sobre a responsabilidade de Raúl Castro.
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