- A instalação multimídia *Machine* (2013), de Äsel Kadyrhanova, foi desmantelada no Pavilhão do Cazaquistão na Bienal de Veneza, antes da abertura, em data anterior a 11 de maio, segundo uma carta aberta publicada no *e-flux*.
- A carta alega que a remoção ocorreu por ordem do Ministério da Cultura do Cazaquistão ou por pessoas ligadas aos organizadores do pavilhão, após falhas nas negociações entre Kadyrhanova e o curador Syrlybek Bekbota.
- O museu italiano que abriga a mostra negou qualquer papel na remoção, assim como a empresa responsável pelos imóveis do Ministério da Defesa e pela Marinha italiana; a assinatura do contrato entre o pavilhão e a empresa D’Uva inclui cláusula que permite remoção de conteúdos considerados políticos ou propagandísticos.
- Bekbota afirmou ter desmontado a obra em sua forma original por responsabilidade institucional, enquanto a co-consultora Danagul Tolepbay contradisse a versão, dizendo que houve pedido explícito para retirar menções a Stalin.
- A publicação também menciona dúvidas sobre a transparência do processo, com pedidos de desculpas, reinstalação da obra e divulgação completa das informações, em meio a críticas à censura e à gestão do pavilhão.
Uma disputa envolvendo o pavilhão do Cazaquistão na Bienal de Veneza ganhou contornos duros após a desmontagem da instalação de Äsel Kadyrhanova, intitulada Machine (2013). A obra, que aborda a repressão stalinista no país, foi retirada antes da abertura oficial do evento, segundo informações divulgadas no início de maio.
A carta aberta publicada em 21 de maio no site e-flux reúne signatários da comunidade artística do Cazaquistão e acusa o Ministério de Cultura de ter ordenado a retirada. Segundo o texto, a decisão ocorreu em 5 de maio, após negociações entre Kadyrhanova e o curador Syrlybek Bekbota terem fracassado.
Versões em conflito
Representantes do Museo Storico Navale di Venezia, instituição anfitriã, negam qualquer participação na retirada, conforme reportagem de Vlast de 11 de maio. A empresa que administra o museu, D’Uva, afirma não ter imposto restrição ou pedido de remoção de Machine, nem recebido instruções de órgãos ligados ao Ministério da Defesa ou à Marinha italiana.
Acordo entre pavilhão e artista, analisado pela ARTnews, prevê cláusula que proíbe obras políticas ou propagandísticas e dá à D’Uva o direito de exigir alterações ou remoção de conteúdos incompatíveis com o contrato. A negociação envolveu também a possibilidade de manter a instalação com ajustes de apresentação.
Contexto e desdobramentos
Bekbota, curador, afirmou que tentou alternativas para manter a obra na mostra, incluindo documentos referenciando Stalin em posição invertida. Ele disse ter decidido desmontar a apresentação no formato original, citando responsabilidades com a instituição, com a mostra e com os financiadores.
Tolepbay, co-comissária, contestou parte da versão da D’Uva, afirmando que, em chamadas digitais, houve solicitação expressa de remover menções a Stalin. Ela também criticou acusações de censura ao Ministério da Cultura, lembrando que o órgão comissionou a obra e já a exibiu no passado.
D’Uva disse buscar afastar a controvérsia, ressaltando que qualquer diretiva de remoção partiu de um especialista não autorizado. A ARTnews procurou o contato da CEO Ilaria D’Uva para comentar o caso.
Kadyrhanova compunha o conjunto de nove artistas no eixo “Qoñyr: The Archive of Silence”, que vincula a história musical do país aos eventos traumáticos do século XX. A obra combinava uma máquina de escrever dos anos 1930, mandados de prisão soviéticos e uma linha vermelha conectando as teclas aos documentos.
Os signatários da carta afirmam tratar-se de censura e exigem retratação, restauração da obra com cobertura de custos e transparência sobre quem ordenou a retirada, com prazo até 31 de maio. Kadyrhanova afirmou que a explicação do pavilhão é vaga, mantendo a leitura de que a pasta cultural possa ter orientado a ação.
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