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Reconstituição do local do primeiro genocídio do século XX

Exposição em Berlim reconstrói Shark Island como campo de concentração e aponta impactos do projeto de hidrogênio na Namíbia sobre terras e memórias

‘A digital shield against historical denial’ … an 1897 photograph from Hatsamas, Namibia, matched with a 3D digital reconstruction.
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  • Exposição Fractured Lifeworlds, em Berlim, apresenta quatro anos de pesquisa da Forensic Architecture sobre o que é descrito como o primeiro genocídio do século XX, envolvendo Herero e Nama na Namíbia.
  • O foco inclui Shark Island, onde, entre 1905 e 1907, houve um campo de concentração com trabalho forçado, fome e abusos; estima-se que cerca de 3 mil pessoas morreram.
  • A mostra utiliza reconstruções visuais e filmes que combinam testemunhos de descendentes com estudos geológicos para mapear como a violência colonial ficou marcada na paisagem namibiana.
  • O projeto Hyphen, de energia verde, planeja expansão portuária em Lüderitz e pode tocar terras de comunidades Nama, gerando preocupações sobre participação e preservação de locais de memória, como cemitérios.
  • Especialistas destacam a abordagem metodológica, que inclui “botanologia forense”, leitura do território e reconstruções de espaços históricos, como forma de enfrentar a negação histórica e manter viva a memória.

O foco de Fractured Lifeworlds está em memória, geografia e responsabilização. A mostra, criada por Forensic Architecture em parceria com Forensis e com participação de pesquisadores Namibianos, investiga o que tem sido chamado de primeiro genocídio do século XX. A exibição chegou a Berlim após estrear no Namibe, Windhoek, e chega agora à Spore Initiative, estruturada em três capítulos sazonais: Bush, Wind e Sand.

A mostra utiliza uma combinação de testemunhos orais de descendentes de vítimas com análises geológicas detalhadas. Um filme de 30 minutos reconstruiria o campo de concentração de Shark Island, evidenciando como autoridades alemãs exploraram o ambiente extremo para o tratamento dos prisioneiros. Há ainda uso de amostras de areia consideradas fendas de túmulos não marcados da ilha.

O conjunto de trabalhos também busca demonstrar como a violência colonial ficou marcada no território. Documentos históricos são complementados por reconstruções digitais que simulam a aparência de aldeias antes de massacres ocorridos no final do século XIX e início do XX. A curadoria enfatiza transparência metodológica para além de registros oficiais.

Entre as obras, destacam-se filmes que combinam depoimentos com análises de paisagem, além de itens visuais como desenhos históricos, mapas e cartas da época. A produção de “botânica forense” analisa tons de cinza em fotos coloniais para inferir padrões de vegetação e reconstruir impactos do domínio colonial no ambiente.

A exposição também marca a proximidade de um projeto de expansão portuária na região de Lüderitz, no sul da Namíbia. O Hyphen, empreendimento britano-alemão voltado ao hidrogênio verde, pretende explorar recursos de vento e sol para produzir hidrogênio e amônia para exportação.

Segundo grupos de direitos humanos, grande parte da infraestrutura do Hyphen é desenvolvida em terras ancestrais de comunidades Nama. Descrições de participação efetiva das comunidades locais são tidas como limitadas por setores da sociedade civil, o que alimenta o debate sobre reparação e preservação de sítios de memória.

Descendentes de Nama e Herero expressam receios de que a expansão portuária possa comprometer memoriais e locais de sepultamento. Sima Luipert, assessora da Nama Traditional Leaders Association, alerta que a obra não está apenas mexendo terra, mas “perturbando os mortos” e afirma que a água do entorno é parte do local de sepultamento.

A Alemanha reconheceu os abusos ocorridos, em 2021, mas não acionou reparações diretas às comunidades Herero e Nama, oferecendo, em vez disso, pagamentos de assistência ao desenvolvimento negociados com o governo Namibiano. A resposta, interpretada por críticos, é vista como tentativa de contorno jurídico em relação a reparações históricas.

Para Luipert, o acordo revela um duplo padrão: a Alemanha agiliza compensações por holocausto, mas utiliza brechas legais para negar reparações a povos africanos. A pesquisadora vê a mostra como ferramenta para evidência e resistência à negação histórica.

Na leitura de Forensic Architecture, o objetivo é ampliar a compreensão pública sobre padrões de violência que ficam alinhados no território. O trabalho, com apoio de Forensis, provoca debate sobre memória, justiça e o papel da paisagem na construção de narrativas históricas.

O projeto conta com a participação de pesquisadores namibianos e utiliza filmes, imagens e dados de campo para oferecer uma visão crítica sobre como o colonialismo moldou o deserto e as áreas de maior confrontação histórica na Namíbia. A mostra reforça a ideia de que passado e presente estão interligados na memória coletiva.

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