- Embaixador Paulo Roberto de Almeida, no BMC Talks, afirma que o Brasil precisa redefinir prioridades da política externa diante de uma ordem global mais fragmentada, protecionismo e disputa entre grandes potências.
- A ordem internacional baseada em liberalismo, cooperação e regras multilateral foi pressionada por medidas protecionistas e ações unilaterais, lembrando sinais de anos 1930.
- Itamaraty é visto como instrumento operacional da política externa; o embaixador destaca a necessidade de diplomatas pensarem de forma crítica, indo além da hierarquia.
- A Organização Mundial do Comércio perdeu protagonismo com a falha da Rodada Doha e avanços de tarifas bilaterais, o que pontua limitações para países médios como o Brasil.
- O Brasil precisa manter o multilateralismo e cooperação internacional, apesar de fragilidade da ONU, e alinhar-se com potências médias para preservar coerência diplomática e desenvolvimento.
O diplomata Paulo Roberto de Almeida participou do BMC Talks, da BM&C News, destacando a necessidade de o Brasil redefinir prioridades na política externa. O cenário internacional atual é marcado por guerras, tensões comerciais e disputa entre grandes potências.
Almeida aponta que o sistema internacional, fundado em liberalismo e cooperação, enfrenta fragmentação. Barreiras e rivalidades cresceram, exigindo do Brasil clareza sobre interesses nacionais, capacidade de negociação e definição de limites como potência média.
Ele ressaltou que o Itamaraty atua como motor técnico da política externa, mas sofre tensões entre diretrizes presidenciais e autonomia profissional. A defesa de princípios e avaliação crítica devem acompanhar a formulação de instruções.
Ordem global sob pressão
Para o embaixador, a atual ordem democrática perde força diante do protecionismo e de ações unilaterais. O cenário lembra elementos dos anos 1930, não pela repetição, mas pela deterioração de regras que sustentam o sistema.
A cobertura internacional aponta risco de revés para acordos multilaterais e para a governança de instituições. A crise afeta negociações comerciais e o equilíbrio entre poderes, com impactos para países médios como o Brasil.
OMC e o comércio mundial
A OMC é vista como instrumento que permitiu vitórias brasileiras em disputas setoriais, como aviação e algodão. O regime enfrenta falhas após aRio da Rodada Doha e decisões unilaterais, com impactos na política tarifária de grandes potências.
O embaixador cita Trump e seus impactos na cláusula nação favorecida, destacando efeitos sobre o funcionamento da OMC. A tendência é de maior ênfase em negociações bilaterais e menos de regras multilaterais.
ONU e multilateralismo
Paulo Roberto de Almeida reconhece fragilidades da ONU, sobretudo diante de conflitos entre grandes potências. Mesmo assim, defende o multilateralismo como canal de cooperação entre países médios para equilibrar forças.
Segundo ele, o Brasil deve manter foco na cooperação técnica e em coalizões, buscando desenvolvimento conjunto. A prioridade seria cooperação, menos ambição de ocupar o centro decisório global.
Brics, Ucrânia e coerência
Ao analisar alianças como Brics, o embaixador aponta dilemas ao Brasil, especialmente diante da invasão da Ucrânia e violações do direito internacional. O tom diplomático brasileiro, muitas vezes, evita posições firmes.
Ele sugere alinhamento mais próximo com potências médias e blocos como Canadá, União Europeia e países da região, mantendo coerência histórica da diplomacia brasileira.
Governança interna e ambição externa
A leitura de Almeida enfatiza problemas domésticos, como educação, regulação, carga tributária e corrupção, que limitam a inserção global. O potencial diplomático existe, porém depende de reformas estruturais.
Para ele, o Brasil avançou em áreas como economia estável e agronegócio, mas não consolidou reformas fundamentais, reduzindo sua capacidade competitiva internacional.
Polarização e próximos passos
A polarização interna impacta a política externa, com linhas ideológicas distintas variando entre alinhamentos com a China, Rússia e aproximaciones com outras potências. A saída apontada é uma diplomacia orientada por interesses nacionais.
O desafio é superar alinhamentos automáticos e buscar cooperação, desenvolvimento e inserção pragmática no cenário internacional, em um mundo mais competitivo e fragmentado.
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