- Acusações falsas de blasfêmia são usadas para extorquir minorias no Paquistão, com uma rede organizada induzindo pessoas a cometê‑lo via redes sociais.
- Agentes, inclusive da polícia, atuam como freelancers, prendendo as vítimas para exigir pagamento e, em alguns casos, com abusos que terminaram em morte.
- O esquema costuma começar em chats em Facebook ou WhatsApp, por meio de perfis falsos ou mulheres com fotos atrativas, que convidam para grupos com conteúdo blasfômo.
- A rede, com ligações a autoridades e estudiosos islâmicos, tem raízes em Rawalpindi e Islamabad e se espalhou pelo país; há vínculos com o grupo Tehreek‑e‑Labbaik Pakistan.
- Em 2024, houve relatório que denuncia a rede como negócio lucrativo; em 2025, decisão do Tribunal Superior de Islamabad sobre criar comissão para apurar abusos foi suspensa, e casos de blasfêmia seguem em ascensão.
Paquistão vivencia um esquema de extorsão ligado a acusações de blasfêmia. Cristãos já denunciavam uso das leis para coibir minorias, mas a prática ganhou uma roupagem criminosa, com uma rede que induz pessoas a cometerem supostas blasfêmias por meio de interações nas redes sociais. O objetivo é explorar financeiramente as vítimas, com prisões que funcionam como sequestros, sob custódia de agentes que atuam como freelancers.
Segundo relatos, a rede recrutaria pessoas por meio de contatos em plataformas como Facebook e WhatsApp, usando perfis falsos para atrair jovens a grupos temáticos. Em muitos casos, o antigo administrador de um grupo é substituído, gerando uma tela de captura que dá início à extorsão. A vítima vê sua vida afetada por mensagens e divulgação de conteúdo supostamente blasfómo.
Origens e operação da rede
A rede seria originária de Rawalpindi e Islamabad, expandindo-se para grande parte do Paquistão e mantendo vínculos com autoridades e estudiosos. Durante julgamentos, multidões costumam pressionar juízes para obter decisões favoráveis aos acusadores. Em muitos casos, o lucro financeiro supera o impulso religioso dos organizadores.
Simon, cristão paquistanês, descreve que o cerco online é central na elaboração das acusações. Ele afirma que indivíduos mal-intencionados começam conversas, ganham confiança e induzem a vítima a emitir falas ou posicionamentos que possam ser enquadrados como blasfêmia. Uma captura de tela é frequentemente usada como prova para exigir pagamento.
Contexto institucional e histórico
A prática é associada a grupos radicais como Tehreek‑e‑Labbaik Pakistan (TLP), que desde 2015 pressiona por aplicar estritamente as leis de blasfêmia. Em janeiro de 2024, um relatório interno chamou a atenção para a rede de extorsão, enquanto em julho de 2025 o governo foi orientado a criar uma comissão para investigar abusos, decisão que acabou suspensa.
Especialistas apontam que a pressão social agrava o problema, dificultando investigações eficazes. Em 2024, houve crescimento expressivo nos casos de blasfêmia em relação a 2020, o que aumenta a vulnerabilidade de minorias. O fenômeno evidencia um negócio lucrativo que envolve violência, intimidação e desinformação.
Situação atual e impactos
Especialistas indicam que não há estimativa precisa de quantas pessoas foram extorquidas, mas o aumento de casos sugere expansão da prática. O panorama indica que, embora haja intenção de conter abusos, a rede permanece ativa, alimentada por cadeias de ameaças, vazamento de informações e pressão sobre autoridades locais.
Eixos de atuação apontados incluem a cooperação entre parte das autoridades, a participação de influentes no meio islâmico e a disseminação de conteúdo prejudicial que eleva o risco para vítimas e familiares. O tema permanece sensível, com comunidades religiosas buscando proteção diante de uma dinâmica que combina tecnologia, fraude e coerção.
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